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Estratégia por storytelling

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19.02.2026

Há alguns meses, apresentei uma análise de unit economics para o conselho de uma empresa. Os números eram claros: o custo de aquisição de clientes estava subindo, a retenção caindo, e o lifetime value projetado não justificava a estratégia de crescimento acelerado. Mostrei as curvas. Expliquei as premissas. Apresentei cenários. Foram quarenta minutos de dados.

Quando terminei, um dos conselheiros levantou a mão e disse: “Interessante, mas conheço uma empresa que cresceu exatamente assim e deu muito certo. Acho que estamos no caminho certo.”

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A frase fez três coisas ao mesmo tempo. Criou uma cena na cabeça de todos. Transmitiu confiança. E pareceu ser um argumento. Pareceu.

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Quarenta minutos de evidência empírica foram neutralizados por uma história de dois minutos. Ninguém perguntou qual era a taxa de sobrevivência de empresas que seguiram essa estratégia. Ninguém perguntou quanto daquele sucesso foi competência e quanto foi circunstância. A história pintou uma imagem, e a sala inteira entrou nela. Enquanto estavam lá dentro, nenhum número do lado de fora parecia relevante.

Isso não é exceção. É a regra. Pensar estrategicamente não é reagir ao último caso que alguém contou. É examinar a própria visão de mundo, não apenas defendê-la com exemplos convenientes.

A hierarquia que ninguém respeita

Todos chegamos a uma reunião com crenças já formadas. Isso é natural. A questão é o que fazemos quando uma nova informação aparece. Em tese, deveríamos ajustar nossas crenças na proporção da qualidade da evidência. Na prática, fazemos o oposto: uma história vívida muda tudo, e uma planilha rigorosa não muda nada.

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Por quê? Porque histórias não tentam provar. Tentam mover. Elas ativam algo anterior ao raciocínio: a vontade de acreditar. Uma boa história faz o ouvinte sentir que já entendeu antes mesmo de ter pensado. Sentir que entendeu e ter entendido são coisas diferentes. Mas na velocidade de uma reunião, quem percebe a diferença?

Existe uma hierarquia de evidências. Lá embaixo, na base, estão opiniões e relatos de caso. Histórias, basicamente. No topo estão revisões sistemáticas e ensaios controlados. Em medicina, essa hierarquia é levada a sério. Em gestão, histórias são a moeda corrente.

A formação em negócios reforça o problema. O método de caso, pilar dos MBAs, treina gestores para pensar através de narrativas. É útil como exercício de raciocínio. Mas cria um vício: a crença de que uma boa história é, por si só, evidência suficiente para tomar decisões. E as histórias escolhidas são quase sempre as que confirmam o que já acreditamos. O mundo muda, mas a coleção de cases favoritos permanece a mesma.

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Um caso isolado pode conter evidência, mas não substitui evidência. Um exemplo isolado não diz nada sobre probabilidade. Não controla variáveis. Não separa correlação de causalidade. É apenas uma observação, a forma mais crua e menos confiável de conhecimento.

A tabela exige interpretação; a história entrega um mundo pronto. Pessoas não foram treinadas para consumir evidência estatística. Foram treinadas para consumir narrativas. Quando você cresce comendo sorvete, estranha quando alguém pede que experimente um vegetal. Engajar com dados desconfortáveis é como ir à academia: no começo incomoda, depois vira hábito.

Ora, alguém poderia argumentar que gestores precisam decidir rápido, e que intuição alimentada por experiência é uma forma legítima de conhecimento. É um ponto válido. Pesar dois lados de uma questão já é melhor do que ser carregado por um só. O problema é quando “intuição” vira nome bonito para uma convicção que se recusa a ser testada. Pesar opiniões é um passo. Mas ainda não é saber.

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Confundir narrativa com evidência tem consequências em duas direções. A mais óbvia: histórias podem levar a decisões que destroem valor. Quando um gestor justifica uma estratégia porque “a Gillette faz assim” ou rejeita uma oportunidade porque “lembra o que aconteceu com a Kodak”, está usando analogias superficiais no lugar de análise. Cada uma cria um cenário que parece real. Quem está dentro dele sente que sabe o que vai acontecer. Mas é ficção. A história é sempre contada de dentro: o que aquela empresa fez, o que aconteceu depois. Nunca de fora: o que aconteceu com as outras cem que fizeram o mesmo.

A consequência menos óbvia é cultural. Organizações que premiam boas histórias acabam selecionando gestores que contam boas histórias, não necessariamente os que tomam boas decisões. A empresa perde o ouvido para dados. Quando alguém apresenta uma análise rigorosa, a primeira pergunta não é sobre a metodologia. É: “Tem algum exemplo de empresa onde isso funcionou?” O interlocutor não está avaliando a evidência. Está pedindo uma história para poder acreditar nela.

Histórias não são inúteis. Uma boa narrativa organiza informação complexa e facilita a memória. Mas existe uma diferença entre fazer alguém imaginar, fazer alguém querer, fazer alguém ponderar e fazer alguém saber. O erro é tratar uma coisa como se fosse a outra.

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O ponto de partida de qualquer boa decisão deveria ser: o que sabemos sobre a maioria dos casos parecidos com este? Essa é a base. Dali, cada evidência nova deveria nos mover, para cima ou para baixo, na proporção do seu rigor. Uma história isolada deveria nos mover pouco. Um conjunto de dados controlados deveria nos mover muito. Fazemos exatamente o contrário.

A consequência é inevitável: se a qualidade da evidência não determina o peso que ela recebe na decisão, as decisões resultantes serão sistematicamente piores. Não às vezes. Sistematicamente. É o que se segue quando as premissas são verdadeiras.

Cultivar literacia em dados exige uma disposição rara em salas de reunião: a de estar aberto a estar errado. Quem só busca confirmação do que já pensa pode ser um ótimo tático, mas nunca será um bom estrategista. A próxima vez que ouvir uma história convincente numa reunião, pergunte a si mesmo: está me fazendo ver algo? Sentir algo? Pesando os dois lados? Ou mostrando que algo é o caso?

Se ninguém souber responder, o que você está ouvindo não é evidência. É entretenimento. E entretenimento não deveria definir o futuro de uma empresa.


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