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Você entra nas redes sociais e se sente um perdedor? Os dados explicam o porquê

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01.03.2026

Aquela sensação de inadequação após rolar o feed do Instagram não é uma mera impressão, mas uma resposta psicológica a um ambiente digital onde 5,04 bilhões de usuários passam uma porção substancial de suas vidas. Globalmente, o tempo médio dedicado às redes sociais já atinge 2 horas e 23 minutos por dia, o que consome 35,8% de todo o nosso tempo online e equivale a 500 milhões de anos de tempo humano coletivo anualmente.

No Brasil, a imersão é ainda mais profunda, com uma média de 3 horas e 37 minutos diários, colocando o país como o terceiro no ranking mundial de tempo de uso, atrás apenas do Quênia (3h 43min) e da África do Sul (3h 41min).

Para adolescentes, o cenário é drasticamente mais intenso. Uma pesquisa da Gallup com 1.591 jovens revelou que eles passam, em média, 4,8 horas por dia em plataformas como YouTube e TikTok, com 51% deles ultrapassando a marca de 4 horas diárias.

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Esse tempo de tela aumenta com a idade, saltando de 4,1 horas para jovens de 13 anos para 5,8 horas aos 17 anos, e é particularmente pronunciado em meninas, que dedicam quase uma hora a mais que os meninos (5,3 horas contra 4,4 horas).

Esse volume de exposição coincide com um aumento alarmante de 70% na prevalência de ansiedade e depressão entre jovens nos últimos 25 anos, um período em que 75% de todos os transtornos mentais se estabelecem até os 18 anos.

A arquitetura das redes sociais é desenhada para exibir o que se chama de “highlight reel“, uma compilação curada dos melhores momentos da vida de uma pessoa, onde apenas as vitórias e conquistas são postadas. Um estudo de 2025 da Frontiers in Psychology demonstrou que esse conteúdo idealizado incentiva os usuários a se engajarem em comparações sociais ascendentes, onde se comparam a outros que percebem como superiores.

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Essa dinâmica é mais intensa para mulheres jovens, que não apenas lideram o consumo de redes sociais (quase 3 horas por dia para a faixa de 16 a 24 anos), como também passam, em média, 12% mais tempo nessas plataformas do que os homens.

A relação entre o uso de redes sociais e o mal-estar psicológico não é apenas correlacional; é um ciclo que se retroalimenta, conforme desvendado por uma pesquisa de 2024 na revista Personality and Individual Differences. O estudo, que combinou métodos com mais de 800 participantes, revelou um “círculo vicioso”: indivíduos com mais sintomas depressivos tendem a fazer mais comparações sociais ascendentes no Instagram, e essas comparações, por sua vez, aumentam os sintomas depressivos.

O estudo conseguiu medir o impacto dessa dinâmica, confirmando que, embora o efeito de uma única comparação possa parecer pequeno, a sua repetição constante resulta em um prejuízo real e mensurável para a autoestima, as emoções e o humor depressivo dos usuários. O mecanismo, segundo os pesquisadores, é a motivação para autoavaliação: pessoas com humor deprimido buscam mais ativamente a comparação, tornando-se mais vulneráveis ao seu impacto.

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Certas características individuais e contextuais intensificam essa vulnerabilidade. A pesquisa da Gallup identificou que traços de personalidade, como a conscienciosidade (ligada ao autocontrole), são um fator protetor; adolescentes com baixa conscienciosidade passam, em média, 1,2 horas a mais por dia em redes sociais/

O ambiente familiar também é crítico: adolescentes cujos pais impõem restrições fortes ao tempo de tela usam as redes sociais por 1,8 horas a menos por dia, embora apenas 25% dos pais afirmem fazê-lo — um número que varia com a ideologia, com 41% dos pais muito conservadores aplicando restrições, contra 23% dos pais mais liberais.

Então, da próxima vez que você se sentir um perdedor ao rolar o feed, respire fundo. Você não está sozinho. Eu me sinto assim. Todos nós nos sentimos assim. É da natureza humana olhar a grama do vizinho e, por vezes, achá-la mais verde, mas as redes sociais transformaram essa tendência em um estádio com bilhões de gramados impecáveis, todos parecendo mais verdes que o seu.

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A verdade é que essa sensação de inadequação não é uma falha sua; é o produto de um sistema desenhado para mantê-lo engajado através da comparação incessante. A consciência desse mecanismo não é a cura, mas é a única arma que temos.


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