Turistas financeiros não querem apenas fundos long short: eles estão interessados em (quase) tudo
Caros(as) leitores(as),O Brasil carece de atenção global, especialmente de investidores. Desde 2014, assistimos a um processo importante de desinvestimento de países emergentes no geral, capital esse que foi atraído e absorvido pelos EUA.Porém, tudo isso começou a mudar com a chegada de Donald Trump e uma série de medidas que “enfraquecem o dólar”. Creio eu que a geopolítica seja uma espinha dorsal fundamental para o início dessa recalibração dos portfólios ao redor do planeta.
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A resultante inicial? Ingresso de recursos na América Latina mais rápido da última década e uma alta impulsionada de uma forma que não víamos há anos. O índice MSCI EM Latin America acumula alta superior a 20% em 2026, o melhor início de ano desde 1991. Brasil, Colômbia e México se destacam com forte entrada de capital estrangeiro.
Até aqui, esse fluxo se concentra em fundos passivos, os ETFs (Exchange Traded Funds). Veículos listados nos EUA mostram números expressivos:
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O ILF (iShares Latin America 40) recebeu mais de US$ 1 bilhão só em janeiro;
O EWZ (iShares MSCI Brazil) teve seu maior fluxo mensal em mais de 10 anos;
Até mesmo o family office de Stanley Druckenmiller aumentou posições.
Para “temperar” essa brincadeira, teremos eventos eleitorais no Brasil e na Colômbia, ambos com possibilidades de mudança no rumo da liderança federal, embora os dois tenham ambientes nebulosos com direitas fragmentadas e representantes da esquerda como favoritos até aqui. Justamente o motivo que influencia o pessimismo dos investidores locais.A grande crítica sobre esses recursos é que eles são associados ao “smart money”, dinheiro oportunístico, se apropria de alguma assimetria e que pode ser “fast money” também, ou seja, sair tão rápido quanto entrou. Entrentanto, eu estou aqui para dizer o que acontece no paralelo e que não começou esse ano, é uma realidade de mais de um ano e meio.Os alocadores globais, sejam eles fundos soberanos, LPs (limited partners) ou multi-managers (Millennium, Citadel, Point72, Balyasny, D.E.Shaw, ExodusPoint, AQR, Boothbay), estão interessados em gestoras de recursos brasileiras como nunca visto. Gostos diferentes, demandas por produtos diversos.Multi-gestores focam nos fundos long short, eles querem uma boa relação de risco vs retorno (sharpe), apenas alpha, sem beta, ou seja, sem posições direcionais – eles não querem “investir no Brasil”, querem apenas uma geração de retorno descorrelacionada do resto do próprio portfólio. O grande desafio dessa classe é o mercado de aluguel, mas isso é tema para outra coluna.Os fundos soberanos gostam dos long onlys, também por suas limitações em termos de alavancagem, utilização de operações em mercado balcão, entre outros. Esse capital costuma ser de longuíssimo prazo, mais de 10 anos de permanência – para o economics da gestora costuma ser um desafio, geralmente eles não pagam bem nas taxas de administração, apenas performance e com clausulas contratuais perigosas como o “first down”.Agora, surpreende a mim e aos meus colegas a demanda por fundos multimercado. Fora do Brasil, são conhecidos como hedge-funds.
Historicamente essa demanda nunca existiu. Os principais nomes da indústria estão cancelando todas as suas agendas locais e mobilizando os principais sócios para visitas fora do Brasil, principalmente nos EUA, Europa e Ásia.Outro ponto que me chama a atenção é que não são apenas os grandes nomes, casas menores também estão realizando agendas nessas praças. Claro, interesse para alocação possui um caminho longo, mas é de se levar em consideração.
Donald Trump está empurrando o capital para cá.
