De infoprodutores a escolas de negócios: como a nova educação venceu a tradição do diploma
“Por que diabos eu passei a juventude decorando a Fórmula de Bhaskara ou a estrutura das mitocôndrias, mas ninguém me ensinou a liderar pessoas, negociar um contrato ou gerir o meu próprio tempo?”
Se você já sentiu que a escola te preparou para passar em provas, mas não para sobreviver à segunda-feira de manhã, bem-vindo ao clube.
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Durante séculos, o conhecimento operou sob a lógica da escassez e do status. Mais do que um atestado incontestável de sabedoria, o diploma universitário servia como um título de nobreza. E a sociedade consentia (mesmo sem necessariamente concordar) que ter o papel na parede bastava.
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Mas, o mercado tem perguntado cada vez menos “onde você se formou?” e exigido cada vez mais “o que você realmente sabe fazer?”.
Tipo a habilidade de falar em público.
Há vinte anos, um executivo dificilmente entraria em uma sala de aula de teatro, a menos que quisesse largar tudo para viver de arte. Hoje, cursos de oratória e performance estão lotados de CEOs e diretores. Eles não querem subir no palco da Broadway, mas querem performar cada vez melhor na política corporativa que, invariavelmente, exige uma comunicação segura e assertiva.
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Resumindo, o conhecimento deixou de ser contemplativo para ser prático. E os números comprovam que isso não é uma “moda”, mas, sim, uma indústria.
Enquanto o ensino superior tradicional enfrenta taxas de evasão que superam 57% e luta contra a ociosidade das salas de aula (segundo dados recentes do Mapa do Ensino Superior), a “nova educação” avança. De acordo com levantamento da CNDL/SPC Brasil, 54% dos internautas brasileiros compraram algum infoproduto no último ano. As pessoas estão tirando o dinheiro da teoria de longo prazo e investindo na solução de curto prazo.
Os novos gigantes (e o que eles nos ensinam)
Essa demanda reprimida por “vida real” criou impérios que nasceram fora do radar do MEC, mas totalmente dentro do radar do lucro e da eficiência. Mais do que preencher uma lacuna deixada pelas universidades tradicionais, esses negócios estão mudando a nossa referência sobre valores (e até sobre preços).
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Quer alguns exemplos?
Link School Of Business: a “Harvard” da Faria Lima
Se a proposta é viver de realidade, a Link levou isso ao extremo. Fundada pelo empreendedor serial Álvaro Schocair Filho e considerada uma das faculdades mais caras do país (com mensalidades que giram em torno de R$ 13 mil a R$ 15 mil), ela desconstruiu a nossa referência de TCC.
Para se formar, o aluno precisa fundar uma empresa que fature e dê lucro real. A instituição atrai herdeiros e novos empreendedores que preferem o networking com grandes empresários no corredor do que a teoria empoeirada na lousa.
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Conquer: o divã de R$ 400 Milhões
Mais do que um case de sucesso financeiro, a Conquer representa um sintoma comportamental. Fundada por Hendel Favarin e Josef Rubin, a escola nasceu para curar a “síndrome do impostor diplomado”.
Eles venderam a solução para a angústia de quem tinha o diploma, mas não tinha a tática. A validação veio em cifras: em 2024, a Wiser Educação (holding de Flávio Augusto) concluiu a compra da operação em um negócio avaliado em cerca de R$ 400 milhões.
G4 Business: a resiliência do pragmatismo
Talvez, o melhor exemplo de que o mercado está priorizando mais a utilidade real do que o diploma seja o G4 Business. A empresa, focada em gestão para PMEs, fechou 2025 com faturamento na casa dos R$ 500 milhões. Mas o verdadeiro case aqui não é apenas o crescimento, é a resistência. Recentemente, a marca enfrentou uma crise de imagem severa após falas machistas de um de seus fundadores, Tallis Gomes.
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Em mercados baseados puramente em reputação institucional, isso poderia ser fatal. No entanto, o G4 continua crescendo. Por quê? Porque o empresário brasileiro, com o caixa sangrando e precisando de gestão, tem buscado o “remédio que cura”. Resumindo: a metodologia que promete resultado imediato venceu a polêmica do personagem anti-heroi.
A era das universidades corporativas
Mas a grande disrupção mesmo está acontecendo dentro de grandes corporações. Elas começaram a entender que não precisam mais terceirizar a formação. Além de transformarem suas autoridades de mercado em verticais de ensino, estão desenvolvendo engrenagens que se retro-alimentam, alternando teoria acadêmica e prática mercadológica.
Vamos de mais alguns exemplos?
XP Educação: a universidade que nasceu do investimento
O caso da XP é emblemático. O que começou como uma necessidade interna de treinar assessores de investimento transformou-se em uma vertical de negócios robusta. A XP percebeu que captar talentos “crus” e formá-los dentro de casa – com a cultura, a velocidade e a técnica da empresa – era mais barato e eficiente do que tentar encontrar o “profissional pronto” que o mercado prometia, mas não entregava.
Ao fundar a XP Educação, a empresa deixou de ser apenas consumidora de mão de obra para ser a formadora e, principalmente, retentora dos melhores profissionais.
Hospital Albert Einstein: a excelência que virou faculdade
O Einstein não se contentou em ser “apenas” um dos melhores hospitais. Ele também se transformou em uma das faculdades de medicina e enfermagem mais prestigiadas do país (e também das mais concorridas).
A lógica é a mesma: quem melhor para ensinar medicina com excelência do que quem pratica a medicina de excelência todos os dias? O braço de ensino do Einstein hoje não só forma profissionais para o próprio hospital, mas exporta conhecimento, provando que a autoridade técnica é o novo diploma.
Google: o ultimato de quem sabe ditar regras
O gigante de tecnologia não abriu uma faculdade física, mas fez algo que abalou ainda mais as estruturas acadêmicas. Ao lançar os “Google Career Certificates”, a empresa declarou publicamente que, para suas vagas, esses cursos de curta duração passariam a ter o mesmo peso de um diploma universitário de quatro anos.
É o recado final (e global) de que a competência verificada vale mais do que o tempo de sala de aula.
A Terapia de Ideias de hoje?
Não me entenda mal: a “nova educação” não veio para decretar a morte da universidade (e nem é isso o que eu desejo). Médicos, engenheiros e cientistas continuam precisando (e muito) da profundidade acadêmica e da pesquisa.
Mas o surgimento desses novos modelos têm mostrado que criar instituições de ensino deixou de ser um ato isolado para se tornar uma parte estratégica de quem vive o tático.Agora, projete isso para o futuro: imagine a revolução que viveremos se a maioria das grandes empresas decidir transformar seus departamentos de treinamento em verdadeiras universidades, entendendo que sua linha de produção mais valiosa é o cérebro do colaborador.
Não seria lindo estudar, por exemplo, design na Apple? Ou então tecnologia na OpenAI? Ou quem sabe até turismo na Disney?
É até difícil prever a magnitude do impacto econômico dessa mudança. Mas, uma coisa é certa: se o trabalho e o aprendizado se fundirem em uma coisa só, o abismo entre a teoria e a prática finalmente irá desaparecer para sempre.
E, quem sabe junto, o esforço para sobreviver a uma segunda-feira.
