A estratégia de Tay Dantas para faturar R$ 36 milhões vendendo criatividade
Como escrever um artigo sobre criatividade sem cair na incoerência de, logo de cara, não ser criativo? É exatamente esse o pensamento que está martelando na minha cabeça agora.
Toda vez que sento para escrever esta coluna, sinto um certo frio na barriga, mas confesso que hoje a ironia bateu um pouco mais forte.
Inscreva-se gratuitamente na InfoMoney Premium, a newsletter que cabe no seu tempo e faz diferença no seu dia
Falar sobre “ser criativo” é uma armadilha cruel. Se eu começar este texto com uma citação batida do Steve Jobs, serei taxado de clichê. Se eu tentar inventar uma metáfora mirabolante sobre a existência humana, corro o risco de parecer pedante. E se eu prolongar demais esse ensejo introdutório, possivelmente, serei mais prolixo do que criativo.
Continua depois da publicidade
Enquanto digito e apago parágrafos, percebo que estou vivendo na pele a “síndrome do impostor”. E, quer saber? Essa minha pequena crise existencial de bastidor é a ilustração perfeita de um dos maiores dilemas da atualidade: o desafio de se provar criativo.
O que estou tentando dizer (de forma criativa ou, pelo menos, reflexiva) é que, a partir do momento em que você precisa abrir a boca (ou um slide de apresentação) para tentar justificar o quão criativo você é, muito provavelmente você já deixou de ser. Então, a solução é mostrar na prática.
Só que agora, em um cenário onde a inteligência artificial passou a cuspir milhões de ideias a cada milissegundo (até mesmo para a pessoa menos criativa do planeta), acredite, soar “diferentão” se tornou mais difícil do que era antes.
Continua depois da publicidade
Lembra da época de ouro da publicidade brasileira? Antigamente, o nível de genialidade de uma agência era medido pela quantidade de Leões de Cannes ou corujas do Caboré que repousavam na recepção luxuosa do escritório. O prêmio era o atestado incontestável de criatividade.
A gente parava para assistir a comerciais como os “Pôneis Malditos” da Nissan ou o “Bebê sem papel” do Itaú. As grandes agências eram as donas absolutas da narrativa.
Continua depois da publicidade
Mas as redes sociais mudaram essa regra. E de forma brutal.
Hoje, o valor real não está na estatueta que junta poeira, e sim no quão relevante você se torna no feed de milhões de pessoas. Criativo não é mais quem ganha prêmio com campanha fantasma feita só para agradar os jurados; é quem consegue hackear a atenção, viralizar uma narrativa e provar, na prática, que sabe dominar o algoritmo para se tornar um publisher.
E é aqui que entra o case mais badalado do momento.
Continua depois da publicidade
O espeto de ferro da VinciSociety
Se você consome conteúdo de negócios, é quase impossível não ter cruzado com a Tay Dantas. Após passagens barulhentas pela G4 Educação e pela Boca Rosa, ela fundou o próprio negócio: a Vinci Society. A promessa é direta: construir “as marcas mais sexys do mercado”.
Uma fala ousada? Com certeza. Potencialmente taxada como esnobe? Talvez. Mas o verdadeiro brilhantismo da Tay foi não ter ficado restrita a vender essa tese em um arquivo de PowerPoint.
Ela se transformou na cliente número um da própria empresa.
Continua depois da publicidade
Em vez de bater de porta em porta atrás de clientes, Tay virou a cobaia da sua própria metodologia. Começou a produzir vídeos aplicando rigorosamente as boas práticas do jogo algorítmico: ganchos fortíssimos de abertura para reter a audiência, assuntos com alto potencial de polarização para gerar debates, reflexões profundas e homenagens (veladas ou diretas) a figuras de peso do mercado, que logo começaram a repostar seus conteúdos.
Apesar de utilizar uma “fórmula de prompt”, teoricamente disponível a qualquer profissional, ela conseguiu lapidar a receita para incorporar uma personagem magnética, envelopada sob a aura de “a mulher mais inteligente e criativa da internet”.
Os vídeos viralizaram. E o meme virou caixa.
Tay se consolidou como uma influenciadora alpha dos business creators. Com essa chancela pública nas redes, choveram clientes querendo o mesmo borogodó. O resultado? R$ 36 milhões de faturamento em 2025, logo no primeiro ano de atuação, acompanhado de um incontestável status de celebridade corporativa.
Um commodity gourmetizado pela audiência
Em resumo, o modelo de negócios da Vinci se baseia em uma prestação de serviços em formato de consultoria high-ticket (de alto valor agregado), focada em estratégia de posicionamento, reformulação de marca (branding visual e verbal) e criação de conteúdo autêntico. Eles pegam empresas sólidas (e muitas vezes engessadas) e fundadores com “síndrome de LinkedIn corporativo” e dão a eles uma injeção de relevância cultural.
Mesmo entregando um trabalho que, em essência, é comoditizado, a empresa se tornou um objeto de desejo cobiçado. O mesmo frisson que antigamente rondava as agências de publicidade com prateleiras lotadas de troféus – inclusive, debochar de quem só tem prêmios e zero inovação se tornou parte do arsenal discursivo.
A moral da – breve – história da Vinci Society?
Quem tem audiência tem tudo. E essa não é uma referência destinada apenas para quem está montando uma agência de publicidade ou algum outro tipo de empreendimento no mercado da economia criativa. Vale para qualquer empresa que está buscando notoriedade real na internet.
Lembra do velho ditado “em casa de ferreiro, o espeto é de pau”? Pois é. Tay Dantas quebrou a regra. E, se eu fosse você, faria o mesmo.
Aliás, é que eu já estou tentando fazer agora mesmo ao escrever esse artigo.
