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A saída da Netflix abre espaço para a Paramount redesenhar o mapa dos direitos esportivos

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04.03.2026

Em dezembro, o imbróglio envolvendo o triângulo Warner Bros. Discovery-Netflix-Paramount estava longe de um desfecho. Naquele momento, o streaming era apontado como favorito para fechar o negócio.

Na ocasião, o Front Office Sports analisou a então oferta hostil de US$ 108 milhões de David Ellison (o arrasto da negociação acumulou nove propostas até a última semana) com o objetivo de pressagiar uma nova estratégia para os gigantes da mídia adquirirem direitos esportivos ao vivo.

A publicação levantou a seguinte hipótese: em vez de disputar direitos esportivos contra vários concorrentes, por que não comprar um rival e herdar seus contratos? Seria uma estratégia de alto risco e alta recompensa que necessitaria de um baú de guerra saudável para aquisições.

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Com poucos direitos esportivos importantes em disputa nos próximos anos, adquirir ativos antes que entrem em leilão aberto é assegurar vantagem competitiva.

O FOS lembrou como Ellison entrou no negócio da NFL. Em 2025, a Skydance Media concluiu um acordo de US$ 8 bilhões para se fundir com a Paramount Global, proprietária da CBS Sports.

Dias antes da reportagem do FOS, mostrei que a investida bilionária expunha um ponto de fragilidade: a TNT Sports como exemplo de que o esporte se tornou o último campo em que modelos de mídia e capital enfrentam suas limitações. A integração vertical volta ao centro da estratégia.

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A projeção do FOS era de que Ellison poderia criar uma superpotência de mídia esportiva com um tesouro de direitos ao vivo controlados pela CBS e pela TNT Sports da WBD. Como cereja no topo, a esses canais continuariam a compartilhar os direitos de um dos principais eventos esportivos do país: o torneio de basquete masculino da NCAA, o March Madness.

Com a saída oficial da Netflix da disputa na última semana, a Paramount Skydance abriu caminho para erguer um império de mídia focado em esportes. Pelo menos foi assim que o blog 365247 Sports chamou a empreitada ainda em janeiro, quando a investida de Ellison não havia convencido os acionistas da WBD.

Para a Paramount, lembrou o blog, o esporte deixa de ser um segmento de conteúdo ou um item de programação para tornar-se a espinha dorsal de sua lógica de streaming, o último obstáculo defensável em um mercado de assinaturas brutalmente competitivo, no qual a rotatividade é barata e a fidelidade é rara.

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Mudanças de controle acionário, no entanto, aceleram reposicionamentos. Agora, a questão não é apenas quem é o dono do conteúdo.

O destino da TNT Sports

Após a Netflix divulgar, no fim de janeiro, que sua oferta de US$ 83 bilhões pela Warner Bros. seria paga integralmente em dinheiro, um documento mostrava que o streaming herdaria alguns dos vários direitos esportivos globalmente, entre eles o UFC em parte da Europa e a Champions League no Brasil e no México.

No mês passado, François Godard observava que a Discovery é a terceira maior unidade linear da Warner na Europa. Caso a WBD fosse adquirida pela Paramount, o destino da operação tenderia a replicar o modelo americano. No Reino Unido, alguma integração com o Channel 5 seria plausível.

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Sob uma aquisição da Netflix, o cenário seria diferente, afinal o streaming não opera canais lineares. A Discovery precisaria de parceiros ou venda fragmentada por país. Godard sugeriu que a Itália, maior mercado lucrativo da Discovery na região, poderia se tornar alvo natural da Sky.

Há ainda a equação da TNT Sports no Reino Unido. A WBD detém 50% da operação e pode adquirir os outros 50% da BT até setembro. Essa decisão antecede qualquer redefinição.

Caso a Paramount ganhasse, previa o analista, a integração da TNT com o Paramount+ faria sentido, especialmente considerando que a plataforma adquiriu os direitos da Champions League a partir de 2027.

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Então, agora vem a ironia inevitável: após perder a Champions, a TNT pode reencontrá-la sob o mesmo grupo controlador.

O peso real do canal esportivo na avaliação

Quando escreveu sobre a batalha pelos direitos esportivos colocando a TNT Sports como fiel da balança, James Mortimer destacou que, para investidores focados no fluxo de caixa da área de mídia, o valor da divisão Linear Networks da WBD reside quase que inteiramente em seus direitos esportivos.

E o futuro desse portfólio definiria o sucesso ou o fracasso da divisão Discovery Global após a aquisição.

Na avaliação do insider, o evento mais significativo que impactou a avaliação da TNT Sports antes da venda foi a perda do pacote da NBA em 2024, um acordo histórico de US$ 77 bilhões que acabou sendo fechado pela Amazon Prime Video e pela NBC Sports (Comcast).

A perda dos direitos da NBA, um ativo fundamental para as redes Turner por décadas, foi um golpe severo que desencadeou uma mudança rápida e visível por parte da gestão da WBD. A empresa agiu rapidamente para mitigar os danos por meio da diversificação e de parcerias estratégicas.

A WBD firmou um acordo de 11 anos com a NBA para a parte digital, conseguindo manter uma fatia do conteúdo de basquete.

Simultaneamente, a WBD “engoliu propriedades esportivas menores”, incluindo os direitos de Roland-Garros a partir de 2025, e a Unrivaled, uma nova liga feminina de basquete 3×3.

Além disso, a WBD consolidou seus relacionamentos com a Disney/ESPN para sublicenciar propriedades importantes de esportes universitários, incluindo jogos das primeiras rodadas do College Football Playoff e os direitos das conferências Big 12 e Big East (cruciais para um público predominantemente americano).

Como destacou Mortimer, ao substituir uma propriedade de destaque e de alto custo por um conjunto mais amplo e potencialmente mais barato de direitos, a WBD mantém a relevância da TNT Sports e estabiliza o fluxo de caixa proveniente da Discovery Global Networks, sustentando assim a avaliação exigida no leilão.

Em projeção feita no fim do ano passado, Mortimer desenhou três cenários. E naquele em que a Paramount vencia a disputa, uma fusão com a WBD transformaria definitivamente o cenário da mídia esportiva.

A principal vantagem da junção com a Paramount é a promessa de sinergia imediata e em larga escala. O portfólio combinado pode ser integrado em canais lineares (CBS, TNT) e streaming (Paramount+, HBO Max), alcançando a eficiência e a escala necessárias para competir efetivamente com gigantes como a Amazon e Netflix.

Para os acionistas da WBD, esse cenário garante que a divisão de Redes Lineares seja absorvida por uma estrutura mais forte e complementar, justificando uma avaliação mais alta para toda a empresa.

O abismo dos direitos de 2028

A tese de investimento em torno da WBD parte da agressiva desalavancagem conduzida por David Zaslav desde a fusão.

Conforme destacou Mortimer, a dívida de longo prazo atingiu US$ 48,6 bilhões em 2022. Caiu para US$ 41,8 bilhões em 2023. Ao final de 2024, estava estimada em US$ 36,7 bilhões. No segundo trimestre de 2025, recuou para aproximadamente US$ 34,4 bilhões.

Ainda assim, a faixa de avaliação discutida no mercado, entre US$ 70 bilhões e US$ 80 bilhões, pressupõe algo além de disciplina financeira. Como apontou o analista, esses números só se justificam sob duas hipóteses: sinergias relevantes no curto prazo ou compradores com motivações estratégicas não estritamente financeiras, como projeção de poder brando no caso do PIF.

Para investidores, portanto, os riscos regulatórios e geopolíticos passam a ter peso semelhante, ou superior, às métricas operacionais, alertou Mortimer.

Em 2024, ao analisar a injeção de US$ 8 bilhões da Skydance na Paramount, destaquei que Ellison já posicionava o esporte como eixo estruturante da companhia, prometendo uma vertical robusta e interativa para fãs da NFL.

Agora, o fator determinante não é apenas escala ou sinergia. E é aqui que entra o componente temporal.

Mortimer chama atenção para um ponto importante: os contratos da NHL e da Major League Baseball expiram em 2028. Esse prazo cria um limite objetivo para a tese de valorização da divisão Linear Networks.

Ao acelerar a venda agora, a administração da WBD monetiza ativos que ainda carregam três anos de previsibilidade contratual e transfere o risco de 2028 ao novo controlador (Paramount) antes que o mercado ajuste plenamente essa questão no valuation.


© InfoMoney