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“The fog of War” no Oriente Médio

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01.03.2026

“All action takes place, so to speak, in a kind of twilight, which like a fog or moonlight, often tends to make things seem grotesque and larger than they really are.” 

Infelizmente temos que escrever mais um texto sobre um conflito armado e suas consequências. Diante do custo de vidas humanas parece fútil ou mesmo leviano tentar discernir os impactos sobre mercados, preços de commodities, etc…

Mas diante de nossa impossibilidade essa é a parte que nos cabe no momento.

Primeiro ponto: escrevemos esse texto no Sábado à noite, horário de Brasília, o que significa que muito ainda está por acontecer nos próximos dias/semanas.

O que sabemos até o momento é que os EUA em conjunto com Israel iniciaram um programa de bombardeio de larga escala sobre alvos militares iranianos. Uma surpresa? A ação claramente não. Os EUA haviam acumulado a maior quantidade de ativos militares desde 2003 na região, incluindo dois grupos de porta aviões. Difícil assumir que não houvesse já, pelo menos, caso as negociações em curso falhassem, uma opção militar sendo considerada. MAS a surpresa vem sendo o alcance e duração dos ataques. Ao contrário dos eventos de 22 de Junho de 2025 onde os bombardeios de limitaram às instalações nucleares de Natanz, Fordow e Isfaham, os relatos atuais narram ataques de muito mais larga escala sobre várias cidades, instalações de governo e alvos da Guarda Republicana.

As notícias do momento incluem entre as vítimas o líder supremo do governo iraniano Ayatollah Ali Khamenei. Isso muda completamente o quadro. Ao contrário de ataques anteriores, os EUA parecem muito mais convictos da necessidade de uma mudança de regime, ou pelo menos de pessoas mais dispostas à negociação.

Aqui acaba qualquer semelhança com os que pensam na ação da Venezuela. O Irã é um país de 90 milhões de habitantes e somente a Guarda Republicana conta com cerca de 190mil soldados. Verdade que o país vinha enfrentando protestos sociais violentos, mas decapitar a liderança está longe de promover algum tipo de estabilidade.

Também, ao contrário de 2025 quando a resposta iraniana foi “comedida” e desenhada para não escalar, dessa vez os misseis e drones iranianos tiveram como alvo quase todas as instalações militares norte-americanas e, mais importante, cidades do Oriente Médio, como Dubai. Isso demostra um nível de desespero por parte do governo iraniano, tentando arrastar toda a região para o conflito. ESSE é o grande risco. Um conflito que se espalhe por uma região que não é exatamente conhecida por sua estabilidade, mas que responde por cerca de 1/3 da produção mundial de petróleo.

Ao contrário de outras ações na região, essa foi uma investida limitada às forças americanas e israelenses, aliados históricos como a Europa, parecem ter sido pegos de surpresa. (No momento a vigorosa resposta europeia foi convocar uma reunião para discutir a questão na SEGUNDA feira…).

Do lado dos aliados históricos do Irã como a Rússia, apenas respostas resignadas.

Quanto aos países da região, os Emirados Árabes acabaram de declarar guerra contra o Irã, e é razoável que outros sigam o movimento dado o desespero das ações iranianas.

Os próximos movimentos

O arsenal iraniano muito em breve se esgotará, junto aos ataques à marinha iraniana isso significa que sua capacidade de retaliação direta será eliminada. Com isso os EUA e Israel possuirão completo controle tanto do espaço aéreo como, mais importante, do estreito de Ormuz, por onde circulam 20% do petróleo e gás natural do mundo.

Existirá, sem dúvida a tentativa por parte do governo iraniano de utilizar minas e mísseis de curto alcance para interromper o fluxo de hidrocarbonetos. O sucesso de tal tentativa é dúbio, mas certamente pode colocar a economia global em uma situação mais desconfortável com altas de mais de USD10/barril do preço do petróleo.

Já a perspectiva de mudança de regime depende da reação popular. Uma vez que não se considera a possibilidade de intervenção militar por terra caberá aos iranianos buscar um novo governo, mas novamente, a Guarda Republicana possui mais de 190mil soldados bem armados…

A reação dos mercados

No momento, dado o final de semana, existem poucas indicações da reação inicial dos mercados. Alguns mercados secundários indicam o petróleo subindo 7% e o S&P caindo próximo de 1%, mas, novamente, mesmo que os mercados estivessem abertos e essas fossem cotações fidedignas, é certamente muito cedo para conseguir precificar corretamente os riscos envolvidos.

Isso NÃO é igual à crise da Venezuela. Uma parcela importante da energia do mundo se concentra na região.

Uma solução rápida parece ser pouco provável considerando a falta de alternativa para alternância de poder.

Existe (ainda que não o cenário mais provável) a possibilidade de uma escalada regional, dado o histórico de instabilidade da região.

Por outro lado, ao que resta do governo iraniano, parece haver poucas alternativas viáveis que não a negociação de uma paz. MAS, como nos disse Robert McNamara, secretário de defesa dos EUA durante a guerra do Vietnã, é muito difícil ter uma visão clara dos fatos na presença da “Neblina da Guerra”.


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