O escárnio contra a Bíblia e a erosão da liberdade religiosa

Há episódios que, embora localizados no tempo e no espaço, revelam muito mais do que um excesso verbal isolado. Eles funcionam como pequenas janelas pelas quais se enxerga a degradação de algo maior. O caso envolvendo o jornalista José Carlos Magdalena, da rádio EP FM, em Araraquara (SP), parece ser um desses. Conforme diversos recortes publicados nas redes sociais, após o programa de 7 de abril, Magdalena se reportou à Bíblia como “livrinho idiota”, ainda classificou a religião como “demoníaca” e defendeu o banimento da religião do espaço social. A repercussão foi imediata: a emissora divulgou nota pública afirmando que não compactua com as falas e pedindo desculpas, enquanto vereadores da região protocolaram moções de repúdio e o episódio passou a ser tratado, publicamente, como caso de intolerância religiosa.

O ponto mais importante, porém, não é apenas a grosseria da fala. O mercado das crenças sempre conviveu com disputa, confronto, crítica e até rejeição recíproca. Isso é normal. Religiões divergem entre si, doutrinas e dogmas religiosos se contestam e visões de mundo se enfrentam. Um ateu pode criticar o cristianismo; um cristão pode criticar o materialismo; um protestante pode discordar do catolicismo; um judeu pode rejeitar a teologia cristã, e por aí vaí. Nada disso, por si só, agride a liberdade religiosa. Ao contrário, em uma sociedade verdadeiramente livre, o dissenso faz parte da paisagem. O problema começa quando a crítica deixa de ser doutrinária, filosófica ou teológica e passa a assumir a forma do escárnio gratuito, do achincalhe público e da tentativa de expulsar a religião da vida comum. Aí já não estamos mais no terreno da divergência religiosa, mas no da corrosão da convivência civil.

É precisamente aí que esse caso se torna simbólico. O jornalista não apresentou uma crítica densa e fundamentada ao cristianismo, não propôs uma objeção intelectual ao conteúdo bíblico, tampouco travou um debate sério sobre fé e razão, Igreja e Estado, religião e esfera pública. Limitou-se a insultar os cristãos e seu livro sagrado. E o insulto gratuito, principalmente quando dirigido ao livro sagrado de dezenas de milhões de brasileiros e bilhões de pessoas pelo mundo, não empobrece apenas quem o profere. Ele empobrece o próprio ambiente social em que passa a ser tolerado. Quando o ultraje substitui o argumento, é porque já se perdeu alguma coisa da civilidade.

O insulto gratuito, principalmente quando dirigido ao livro sagrado de dezenas de milhões de brasileiros, empobrece o próprio ambiente social em que passa a ser tolerado

O insulto gratuito, principalmente quando dirigido ao livro sagrado de dezenas de milhões de brasileiros, empobrece o próprio ambiente social em que passa a ser tolerado

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