“Euphoria”: o que você quer ser quando morrer? |
“Tudo o que vocês têm a fazer é olhar para a história da minha vida. Se existe alguma moral nela, é esta: se você pensa que a droga é emoção e um barato, está seguramente fora de si. Existem mais emoções a se desfrutar num caso de paralisia por pólio ou vivendo com um pulmão de aço. Se você acha que precisa da droga para tocar música ou cantar, está maluco. A droga pode deixá-lo de tal maneira que não vai conseguir tocar nem cantar nada.” (Billie Holiday)
Enfim, a série Euphoria chegou ao fim. Após um hiato de quatro anos e muitas intercorrências, a obra-prima de Sam Levinson, protagonizada por Zendaya, terminou deixando um gosto agridoce na boca de alguns fãs e muito amargo na de outros. Muitos não reconheceram mais a série que tanto amavam; outros criticaram a falta de desenvolvimento de alguns personagens; outros tantos, a saída do cantor e compositor Labrinth, alma musical da série nas duas primeiras temporadas, substituído pelo titã Hans Zimmer; e quase ninguém gostou do clima western da derradeira temporada. Mas, para mim, o final foi nada menos que glorioso.
Mas vamos do começo. Para quem ainda não sabe, Euphoria é uma série da HBO que narra a história de adolescentes da geração Z e seus dramas e tragédias durante o período escolar. Mas não só isso. É uma série sobre os desafios dos jovens num mundo hiperconectado e com uma quantidade quase infinita de drogas disponíveis para disfarçar a falta de sentido de suas vidas, que beira entre o niilismo e a busca atabalhoada por alguma redenção. Nesse sentido, não se trata de uma série para adolescentes, como muitos ainda pensam, e a própria mídia muitas vezes divulga; mas uma série sobre adolescentes – para adultos.
A primeira temporada (2019) concentra-se na construção do drama de Rue Bennett – protagonista brilhantemente vivida por Zendaya – e de seus amigos de escola, que buscam pertencimento e sentido num universo marcado por excessos. Jules (Hunter Schafer), uma jovem trans, busca validação afetiva e estabelece com Rue uma relação central para a narrativa; Nate Jacobs (Jacob Elordi), aquele tipo de galã durão do ensino médio, se esforça (não raro, violentamente) na tentativa de esconder seus conflitos internos e familiares; Cassie Howard (Sydney Sweeney) se perde em relacionamentos e aventuras sexuais em busca de amor; e Kat Hernandez (Barbie Ferreira), uma jovem com sobrepeso, experimenta reinventar sua identidade por meio da exposição na internet. Há também Fezco (Angus Cloud), o traficante gentil, que desempenha o papel de protetor informal de Rue, equilibrando a atividade criminosa que exerce com uma humanidade e uma lealdade raras naquele universo; e Ali (Colman Domingo), um homem adulto, ex-dependente químico, que frequenta o mesmo grupo de Narcóticos Anônimos que Rue, se afeiçoa a ela e oferece um contraponto maduro e espiritual ao caos que marca sua vida.
“Euphoria” não é uma série para adolescentes, como muitos ainda pensam, e a própria mídia muitas vezes divulga; mas uma série sobre adolescentes – para adultos
“Euphoria” não é uma série para adolescentes, como muitos ainda pensam, e a própria mídia muitas vezes divulga; mas uma série sobre adolescentes – para adultos
A segunda temporada (2022) aprofunda a deterioração emocional e os conflitos gerados por desejos, mentiras e dependências desses jovens. Rue mergulha fundo no vício, ao mesmo tempo em que busca redenção. Sua mãe, Leslie Bennett (Nika King), e sua irmã Gia (Storm Reid) são profundamente afetadas pelas escolhas de Rue; a busca de amor e validação social se abre num triângulo amoroso entre Nate, Cassie e Maddy Perez (Alexa Demie); e Lexi Howard (Maude Apatow), irmã de Cassie, monta uma peça de teatro que acaba funcionando como um retrato do estado emocional dos principais personagens.
Já a terceira temporada (2026) muda completamente a abordagem e apresenta os personagens na transição para a vida adulta, obrigados a confrontar a responsabilidade por seus atos e a possibilidade (ou não) de redenção. Rue continua sendo o eixo emocional da narrativa, tendo de lidar não apenas........