O Brasil e a difícil arte de ser assaltado todos os dias

Numa longínqua madrugada de 1989, quando este que lhes fala não era um cronista de sete leitores, mas apenas um estudante de jornalismo esquerdista, fui assaltado ao sair de uma festa no Restaurante Universitário. Levava na carteira uma nota de dez cruzados novos. Era a época da hiperinflação do Sarney, e aquele dinheiro não valia praticamente nada — talvez nem meia cerveja.

Assim como nos filmes policiais americanos, a dupla de assaltantes era formada por um malvado e um menos malvado. O malvado assumiu a liderança da operação.

— Passa a grana, cara!

Ele olhou a nota com desprezo.

— É pouco! Tira a peita, tira a peita!

Já comecei a desabotoar minha camisa de mangas curtas. Lembro-me perfeitamente dela: bege, lisa, um pouco amassada e muito confortável. Talvez encorajado pelas cervejas da festa do RU, resolvi apelar à razoabilidade do marginal.

— Pô, mano. Você vai me deixar voltar pra casa sem camisa?

O assaltante menos malvado olhou para mim e decidiu interferir.

— Deixa o cara, deixa o cara.

E assim voltei para a república com dez cruzados novos a menos, porém não descamisado.

Durante muitos anos pensei naquele episódio apenas como uma pequena aventura universitária — uma........

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