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Inquérito do Fim do Mundo: crime sem castigo e castigo sem crime

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26.02.2026

Após sete anos de sono profundo, a OAB acordou? Eu não diria tanto. Ao pedir, de joelhos e quase chorando, o encerramento do Inquérito do Fim do Mundo, a Ordem dos Advogados do Brasil assemelha-se mais a um sonâmbulo que, em meio a um pesadelo, balbuciou algumas palavras.

Da mesma maneira, a grande mídia — inclusive a revista The Economist, porta-voz da esquerda globalista — parece ter descoberto, de uma hora para a outra, que o famigerado inquérito aberto de ofício há sete anos por Dias Toffoli e Alexandre de Moraes, sob o pretexto de defender a democracia, não passa de um instrumento ilegal, imoral e perverso de um regime tirânico que destruiu a justiça e a liberdade no Brasil. Parabéns.

Despertai, OAB! Despertai, Globo! Despertai, The Economist! Para refrescar a memória de todos, este cronista de sete leitores republica aqui um texto que veio à luz em 2020, como prefácio do livro “Inquérito do Fim do Mundo”, organizado por Cláudia de Morais Piovezan, obra em que diversos juristas e intelectuais brasileiros denunciavam essa aberração jurídica que tantos males e injustiças vem causando ao Brasil.

Por algum motivo convidaram a mim, um escritor, para fazer o prefácio do livro “Inquérito do Fim do Mundo”. Trata-se de uma obra de natureza técnica, elaborada quase em sua totalidade por profissionais da área jurídica e acadêmica. Por que, então, chamaram um escriba e, pior, um representante do menor dos gêneros literários, a crônica jornalística? Talvez porque, em minha condição de habitante do cotidiano e rato de biblioteca, possa eu atentar para aspectos do tema que porventura tenham passado despercebidos.

Há tempos venho repetindo, como uma espécie de mantra: — O crime sem castigo leva ao castigo sem crime. Uma das bem-aventuranças do Sermão da Montanha diz respeito à justiça: “Bem-aventurados aqueles que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados.” (Mt 5, 6). Isso significa que a justiça é um anseio que habita o coração do homem. Obrigar o homem a viver sem justiça é como tentar fazê-lo viver sem coração.

Mas o que acontece quando, por alguma razão, o anseio universal pela premiação do bem e a punição do mal não é realizado pela justiça humana? O que acontece quando os bandidos, os ladrões, os corruptos, os estupradores, os pedófilos e os assassinos não recebem a justa sanção? Ah, meus amigos, aí acontece algo terrível.

Quando a justiça não funciona, a sede e a fome mencionadas por Jesus continuam existindo e precisam ser saciadas por algum método. Eis que esse método é a transformação dos inocentes em culpados.

Uma sociedade que não pune seus criminosos fatalmente acabará punindo seus membros que não cometeram crime algum

Uma sociedade que não pune seus criminosos fatalmente acabará punindo seus membros que não cometeram crime algum

Se a Justiça não cumpre efetivamente o seu papel, ela será substituída pelo Crime, no tribunal em que a sede de justiça se mata com veneno.Por diversas vezes, na história, as instituições judiciais se transformaram em meio para a punição de inocentes. Assim morreu Sócrates. Assim foram perseguidos os profetas do Antigo........

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