Leão XIV realizará consistórios extraordinários anualmente para ouvir os cardeais

Diz o Código de Direito Canônico que os cardeais têm duas grandes funções: escolher um novo papa quando a Sé Apostólica está vacante, e prestar “auxílio ao Romano Pontífice na solicitude quotidiana da Igreja universal”. Esta segunda função ganhou um impulso considerável ao fim do consistório extraordinário realizado em 7 e 8 de janeiro, pois o papa Leão XIV determinou que, a partir de agora, as reuniões com todos os cardeais para tratar de temas relevantes para a Igreja Católica ocorram anualmente – e o próximo já está marcado para junho deste ano. “O desejo do papa é consultar de maneira mais ampla e sistemática os seus cardeais”, disse à coluna dom Orani Tempesta, cardeal-arcebispo do Rio de Janeiro.

De fato, esta parece a continuação natural de um processo iniciado durante o conclave, em que muitos cardeais reclamaram da falta de oportunidades para encontro, conhecimento mútuo e troca de ideias durante o pontificado de Francisco – uma falta que, justiça seja feita, não pode ser jogada toda nas costas do papa, pois tivemos anos de pandemia atrapalhando as interações, especialmente considerando que os cardeais, por sua idade, eram o grupo de risco por excelência; além disso, como comentei na semana passada, os antecessores de Francisco também foram bastante parcimoniosos na convocação de consistórios extraordinários. Leão XIV parece disposto a sanar esta lacuna e, se perceber que o compromisso anual está sobrecarregando os cardeais, nada impede que ele mude a periodicidade ou volte ao sistema anterior, de convocações esporádicas.

Leão XIV também já disse desejar que os próximos consistórios durem mais tempo, coisa de três a quatro dias. Também, pudera: na semana passada os cardeais tinham apenas um dia e meio para tratar de quatro temas nada triviais, e não surpreende que eles tenham reduzido o programa para os dois assuntos mais votados: a evangelização e a sinodalidade. Isso reduziu ainda mais o tempo de debate propriamente dito. “O primeiro dia foi dedicado à discussão inicial, à escuta conjunta e à reflexão, com o objetivo de escolher os temas. No dia seguinte, pela manhã, foi aprofundado um dos temas escolhidos e, à tarde, o outro tema, com suas conclusões e o respectivo resumo”, relatou dom Orani.

Qualquer papa decidirá melhor se puder ouvir todo tipo de argumento, e não apenas aquilo que ele gostaria de ouvir

A maior parte das discussões acabou ocorrendo dentro dos grupos; apenas ao fim houve uma sessão plenária em que alguns cardeais tiveram escassos três minutos para falar diante de todos os seus confrades – cerca de 170 deles estiveram no consistório; dezenas não vieram por questões de idade avançada, saúde ou dificuldades logísticas para a........

© Gazeta do Povo