Quando investigar vira exceção |
Os documentos da Receita Federal levados à CPI do Crime Organizado comprovaram as informações que já eram graves: transferências de R$ 80 milhões do Banco Master ao escritório da esposa de Alexandre de Moraes. Não podem usar mais a desculpa de narrativa política, são dados oficiais que exigem uma apuração rigorosa e imediata.
O que se vê, porém, é o oposto. O presidente do Senado Federal, Davi Alcolumbre, que deveria liderar esse processo de esclarecimento, anuncia que vai encerrar a CPI sob o argumento de que estamos em um ano eleitoral. Trata-se de uma inversão inaceitável de prioridades. A lógica implícita é clara: a conveniência política fala mais alto do que o dever constitucional de fiscalizar. Quando o calendário eleitoral serve de desculpa para interromper investigações, abre-se espaço para a institucionalização da impunidade.
O que está em jogo não é apenas mais um escândalo, mas a própria credibilidade das instituições. Um parlamento que se omite enfraquece a democracia que deveria proteger e transmite à sociedade a mensagem de que há intocáveis no topo da República
O que está em jogo não é apenas mais um escândalo, mas a própria credibilidade das instituições. Um parlamento que se omite enfraquece a democracia que deveria proteger e transmite à sociedade a mensagem de que há intocáveis no topo da República
Como se não bastasse, novas informações apontam que o mesmo Banco Master bancou viagem do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, para participar de um fórum jurídico em Londres. Passagens, hospedagem, locomoção e até alimentação e uma degustação do caríssimo Whisky Macallan pagas pelo banco de Daniel Vorcaro. Só uma diária do hotel escolhido passa de R$ 6 mil. A pergunta que se impõe é simples: como garantir isenção na atuação de órgãos de investigação quando há vínculos dessa natureza?
Em Brasília, onde rumores circulam com rapidez, suspeitas sobre a atuação do Banco Master já eram comentadas há tempos. Ainda assim, autoridades que deveriam agir com cautela mantiveram proximidade com a instituição e o próprio Vorcaro. É exatamente o caso do diretor-geral Andrei Rodrigues, da Polícia Federal. Mais grave: o aparato estatal tem sido utilizado para constranger parlamentares que denunciam abusos, invertendo completamente a lógica do Estado de Direito.
Um Supremo suspeito e que não se olha no espelho
Não surpreende, portanto, que uma parcela expressiva da população já veja no próprio Judiciário um fator de enfraquecimento da democracia. Esse dado não pode ser ignorado. A confiança nas instituições é o alicerce de qualquer regime democrático, e sua erosão é sempre um sinal de alerta.
A Constituição de 1988 não conferiu poderes ilimitados a ninguém; ao contrário, instituiu limites justamente para impedir que autoridades se blindem atrás de seus cargos. Quando o Senado se recusa a agir diante de fatos graves, deixa de ser parte da solução e passa a integrar o problema, alimentando um ambiente onde a falta de responsabilização se torna regra.
O que está em jogo não é apenas mais um escândalo, mas a própria credibilidade das instituições. Um parlamento que se omite enfraquece a democracia que deveria proteger e transmite à sociedade a mensagem de que há intocáveis no topo da República. Isso é incompatível com qualquer noção de Estado de Direito. Se há um caminho para reverter esse quadro, ele passa por romper com a inércia e restabelecer o princípio mais básico de uma nação livre: o de que poder sem controle degenera, e autoridade sem fiscalização abre espaço para abusos. O Brasil não precisa de mais silêncio, precisa de responsabilidade e responsabilização daqueles que se julgam intocáveis.