O fator Ciro |
Ainda não bateram o martelo, mas a eventual candidatura de Ciro Gomes à presidência pelo PSDB pode ter um forte impacto no tabuleiro eleitoral, em um cenário marcado por polarização, fadiga da sociedade e crescente desconfiança institucional. Se for mesmo candidato, o ex-ministro e ex-governador cearense, com seu discurso nacional-desenvolvimentista e apelo popular enraizado no Nordeste, introduz uma variável que deve alterar os cálculos de todos os campos políticos.
Tentei fazer a reflexão a seguir de forma desapegada, sem endosso a qualquer candidatura, mas com clareza crítica em relação aos vícios estruturais do PT e do sistema de poder que o cerca. Estamos, é claro, no terreno da especulação: a fragmentação da esquerda, com o provável sangramento de votos de Lula; o surgimento de uma terceira via competitiva; e a possível reacomodação do sistema em torno de Ciro como “mal menor” ainda são apenas hipóteses.
O que parece certo é que a candidatura de Ciro representa um risco real de fragmentação da base petista. Historicamente, o PT construiu sua hegemonia eleitoral com base no voto popular do Nordeste e das periferias urbanas, sustentado por programas de transferência de renda e pela narrativa de inclusão social. Mas o desgaste acumulado em praticamente duas décadas de gestões petistas não foi pequeno: escândalos em série e gestão fiscal frouxa levaram muitos brasileiros comuns à percepção de que foram enganados.
Em um cenário bipolar, o estrago pode ser grande. Ciro, que já foi aliado e depois crítico ferrenho do PT, disputa um eleitorado parcialmente sobreposto ao de Lula. Seu discurso, que critica o que chama de “entreguismo” econômico, a ineficiência burocrática e a ausência de um projeto industrial consistente, dialoga com aqueles eleitores que ainda defendem um Estado forte, mas não aguentam mais o modelo petista........