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A fome como eixo da tragédia russa

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10.01.2026

A Revolução Russa costuma ser apresentada como um divisor de águas político e ideológico do século 20, responsável por criar o primeiro Estado socialista da História. Em A Tragédia de um Povo: A Revolução Russa, 1891–1924, obra monumental do historiador britânico Orlando Figes, agora relançada no Brasil, essa narrativa é deslocada para um terreno muito mais incômodo.

Para além de partidos, líderes e doutrinas, Figes sustenta que a revolução foi, acima de tudo, uma catástrofe humana. No centro dessa tragédia recorrente está a fome — não como um acidente episódico, mas como uma força estrutural que moldou decisões políticas, destruiu laços sociais e empurrou milhões de pessoas aos limites da condição humana.

Ao longo de mais de três décadas de crise contínua, do final do Império czarista aos primeiros anos do regime soviético, a Rússia foi devastada por sucessivos surtos de escassez alimentar. Essas fomes não podem ser explicadas apenas por fatores naturais. Secas, geadas e pragas existiram, mas o impacto letal decorreu sobretudo de políticas estatais desastrosas, guerras prolongadas, desigualdades estruturais e de um desprezo sistemático pela vida. Para Figes, a fome não foi um pano de fundo da história russa: ela foi um de seus motores centrais.

Entre 1891 e 1922, milhões morreram não apenas de inanição, mas também em função das epidemias, da violência e do colapso social desencadeado pela escassez. Esses episódios corroeram a confiança no Estado, radicalizaram a população e criaram as condições que levaram a sociedade russa da autocracia czarista ao totalitarismo soviético. A trajetória revolucionária, tal como Figes a reconstrói, é inseparável desse sofrimento material extremo.

O primeiro grande choque ocorreu com a fome de 1891–1892. Cerca de 36 milhões de pessoas, em 17 províncias, foram........

© Gazeta do Povo