Quando Deus volta ao centro do debate: política, fé, laicidade e laicismo

A polêmica envolvendo Silas Malafaia e Damares Alves é daquelas que o ambiente digital adora: personagens conhecidos, frases fortes, recortes, indignação, torcida. É o tipo de episódio que alimenta a máquina do “lado A contra lado B” e dá ao público a sensação de que está acompanhando política quando, muitas vezes, está apenas consumindo espetáculo, especialmente quando tudo se parece com ações do tipo “fogo amigo”, ou, em tempos de BBB, “lavação de roupa suja”.

Mas o ruído não é inocente. Ele funciona como uma cortina. Enquanto discutimos o detalhe, ignoramos a arquitetura. Ao nos fixarmos no tom, perdemos o ponto. E o ponto, aqui, não é “quem falou o quê”, mas as razões pelas quais esse tipo de fala tem esse tipo de impacto.

Há um incômodo que aparece toda vez que a religião entra de forma explícita no debate político brasileiro. Não é um incômodo jurídico; é cultural. Uma parte do país aceita, sem grandes problemas, que sindicatos, movimentos identitários, entidades empresariais, ONGs e coletivos pressionem, opinem e façam política. Mas, quando a voz vem de um púlpito (ou quando a pauta envolve igrejas), surge o alerta moral: “mistura perigosa”, “ameaça”, “retrocesso”.

A pergunta delicada é: por que alguns atores são percebidos como “sociedade civil” e outros, como “risco democrático”? Em muitos casos, a........

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