Da carta aos evangélicos à família em conserva |
Há momentos em que um país se revela menos pelos seus programas oficiais do que pelas imagens que escolhe celebrar. A fala pode mentir. A propaganda pode recalibrar a mensagem. A nota pública pode aparar arestas. Mas a imagem, quando emerge do inconsciente político de um grupo, costuma dizer mais do que o texto cuidadosamente revisado pelo marketing. Foi exatamente isso que aconteceu no Brasil recente. O problema não é apenas uma frase de Lula, nem apenas um desfile de carnaval. O problema é a linha que une as duas coisas. Em 2022, a família apareceu como valor a ser cortejado. Em 2023, como discurso a ser combatido. Em 2026, como caricatura a ser ridicularizada.
Vale a pena recordar o primeiro ponto dessa sequência. Durante a campanha de 2022, Lula e seu entorno compreenderam que não seria possível governar o Brasil real sem ao menos falar a linguagem moral do Brasil profundo. Não por acaso, a campanha investiu no aceno à família e à religiosidade. Em abril daquele ano, a própria cobertura política registrou a tentativa de “revalorizar a família”, com Lula dizendo que era preciso fazer com que “as famílias passem a ter valor nesse país”. Meses depois, na carta dirigida aos evangélicos, o então candidato prometeu respeitar integralmente a liberdade religiosa, afirmou que jamais fecharia igrejas, garantiu que não criaria obstáculos ao livre funcionamento dos templos e ainda assumiu o compromisso de “fortalecer as famílias”, reconhecendo nelas um valor central de sua própria vida.
Esse esforço de aproximação tinha uma razão simples: a esquerda brasileira sabia que, sem reduzir a desconfiança de cristãos, conservadores, pais de família e eleitores identificados com o patriotismo cívico, permaneceria confinada a uma bolha sociológica. O ponto é........