A dependência do Estado como projeto de poder esquerdista
Na Europa Central, o socialismo real, implantado sob tutela soviética depois de 1945, não foi um simples acidente de percurso nem pode ser explicado apenas como resultado de “desvios”. Ele expressou de maneira coerente um modelo que concentrava o poder, sufocava os incentivos econômicos e submetia a sociedade ao controle do Partido. Anne Applebaum, em Cortina de Ferro: o esfacelamento do Leste Europeu (1944–1956), mostra que a ambição totalitária ia muito além do controle da economia: pretendia submeter ao Estado a política, a educação, a cultura, a religião, os meios de comunicação e as organizações independentes da sociedade. O ideal era uma sociedade na qual nenhuma instituição relevante permanecesse verdadeiramente fora do alcance do Partido.
Tchecoslováquia, Hungria, Polônia e Alemanha Oriental oferecem talvez os exemplos mais claros desse processo: países com tradições industriais, culturais e religiosas relativamente desenvolvidas foram transformados em economias marcadas pela escassez, sociedades corroídas pela desconfiança e ambientes de profundo empobrecimento espiritual. Em vez da prometida emancipação do trabalhador, formaram-se populações cada vez mais dependentes de um Estado que controlava o emprego, a moradia e a educação, e pretendia estender esse domínio até mesmo à consciência. A mesma lógica de concentração de poder e enfraquecimento das instituições autônomas reapareceu, sob formas e intensidades distintas, em Cuba, Nicarágua e Venezuela; mecanismos semelhantes de dependência e expansão estatal podem ser identificados, como veremos, também no Brasil.
Da produtividade à escassez planejada
Antes da tomada comunista, a Tchecoslováquia estava entre as economias mais avançadas da Europa. Em 1938, seu nível de desenvolvimento industrial e sua produtividade a colocavam entre os países mais desenvolvidos do continente. Após o golpe comunista de 1948 e a imposição do planejamento central, a propriedade privada foi progressivamente liquidada, os preços passaram a ser fixados administrativamente e os mecanismos de mercado foram substituídos pelo comando estatal. O resultado foi aquilo que o economista húngaro János Kornai posteriormente chamou de “economia de escassez”: filas crônicas, produtos de baixa qualidade, desperdício de recursos e ausência de inovação genuína.
O crescimento extensivo, sustentado pela mobilização da mão de obra rural e por pesados investimentos em siderurgia e indústria pesada, começou a se esgotar nas décadas de 1970 e 1980. Os investimentos em novos equipamentos diminuíram, a produtividade estagnou e o atraso tecnológico em relação ao Ocidente se aprofundou. Enquanto Áustria e Alemanha Ocidental prosperavam, Tchecoslováquia e Hungria experimentavam crescente estagnação relativa. Na Polônia, a deterioração econômica desembocou em crises de dívida e escassez de alimentos durante os anos 1980.
A Alemanha Oriental, apresentada como a “vitrine” do bloco socialista, manteve um PIB per capita estimado em cerca de metade do registrado na Alemanha Ocidental e só conseguia conter o êxodo de sua população por meio do Muro de Berlim e da vigilância armada de suas fronteiras. Apesar da imagem de economia mais avançada do Leste Europeu, necessitava desesperadamente de divisas fortes. Por isso, exportava sangue e plasma para o Ocidente, inclusive obtidos de prisioneiros, por meio de intermediários suíços. Em 1985, esse comércio chegou a envolver remessas contendo unidades positivas para HIV. A “vitrine” socialista se sustentava, em parte, vendendo ao Ocidente o próprio sangue de seus cidadãos.
O totalitarismo não exigia apenas obediência: procurava reduzir os espaços nos quais as pessoas podiam aprender a viver, associar-se e pensar sem o Estado
O totalitarismo não exigia apenas obediência: procurava reduzir os espaços nos quais as pessoas podiam aprender a viver, associar-se e pensar sem o Estado
O mesmo pragmatismo cínico apareceu na política cultural e religiosa. Durante décadas, o regime exaltou Thomas Müntzer, o radical da Guerra dos Camponeses de 1524-1525, como reformador “progressista” e protocomunista, enquanto Martinho Lutero recebia tratamento crítico ou secundário. Nos anos 1980, porém, a necessidade de atrair turistas ocidentais – e, com eles, suas divisas – levou a Alemanha Oriental a mudar o discurso. Wittenberg e outros locais ligados a Lutero foram restaurados, o 500.º aniversário do nascimento do reformador foi celebrado com pompa em 1983, e sua figura passou por uma reabilitação oficial. O patrimônio religioso que o regime havia desprezado transformou-se, de repente, em atração turística e fonte de moeda estrangeira.
Esse padrão econômico se repetiu por todo o Leste Europeu. Sem propriedade privada, preços........
