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O privilégio de morrer em Zurique

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06.05.2026

Célia Maria Cassiano morreu em 15 de abril de 2026, numa cama de Zurique, com duas enfermeiras ao lado e sem sentir dor. Tinha atrofia muscular progressiva – doença que devora os músculos e poupa o intelecto. Antes do procedimento, gravou um vídeo. Disse que estava no limite da dignidade. Disse que os últimos dias na Suíça haviam sido os melhores da vida. Pediu uma lei que permitisse, no Brasil, o mesmo direito.

A frase “limite da dignidade” faz um trabalho filosófico antes de qualquer debate sobre legislação. Pressupõe que a dignidade tem um limiar – um ponto abaixo do qual ela se esgota, e cujo critério é a condição clínica. Quem precisa de três pessoas para ir ao banheiro está, segundo essa lógica, mais próximo do limite do que quem não precisa. Essa premissa, vestida de compaixão, é o que o discurso da morte digna instala antes de qualquer argumento.

Vi minha mãe morrer de câncer. Foi uma dos momentos mais dramáticos da minha vida. Não havia nada de higiênico nisso. Havia dor, morfina, o cheiro específico que a morte tem quando chega, e meu irmão segurando-a quando suspirou pela última vez. Registro isso porque o personalismo que defendo não romantiza a agonia – e quem imagina que sim nunca esteve com o moribundo agonizando às três da manhã. A posição é outra: o sofrimento não anula a pessoa, e a resposta ao sofrimento é o cuidado – cuidado que só o amor sustenta, não a funcionalidade........

© Gazeta do Povo