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O estorvo e a felicidade liberal

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10.06.2026

Passei a semana onde não devia: nas redes, no rastro das reações ao caso do casal que recebeu o resultado do exame pré-natal – síndrome de Down – e decidiu interromper a gravidez. Conheço a discussão de cor. Escrevi um livro contra o aborto e não me lembro de ter convencido ninguém que já não estivesse convencido. Li tudo assim mesmo, até o fim, com a disciplina de quem cutuca ferida.

O argumento que voltou, como volta sempre, foi o do amontoado de células. O embrião seria isso: tecido, matéria indiferenciada, coisa. Com o novo detalhe, um corpo doente, que privaria, caso nascesse, o sono dos pais. Há um primeiro problema baixo e concreto nessa tese, e ele estava no centro do próprio caso: o exame. Ninguém pede cariótipo de um amontoado. Ninguém sequencia o genoma de uma verruga para saber quem ela vai ser. O laboratório encontrou ali um indivíduo da espécie humana, com um patrimônio genético que pertencia a ele – e a mais ninguém na sala –, completo desde a primeira célula, com sexo definido, instruções próprias e um cromossomo a mais. O laudo dizia “paciente”. A decisão seguinte tratou o paciente como problema, e o problema foi resolvido. Lixo hospitalar. Melhor jogar fora agora do que gerar tanta desgraça futura.

Antes de qualquer fórmula, há um dado que a fenomenologia me ensinou a levar a sério: o modo como algo se apresenta já diz o que ele é. E o embrião se apresentou àquele casal, desde o primeiro enjoo, como alguém que vinha. Vinha porque já era, não porque viria a ser. Dirão que é projeção dos pais, apego que veste de gente o que é coisa. Só que projeção inventa, e eles respondiam a algo: a foto na geladeira é de um ultrassom, retrato de quem já está, e a máquina que o registrou não tinha afeto a projetar. A gravidez se vive na segunda pessoa: a mãe........

© Gazeta do Povo