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Elogio a Helena – sobre a escolha de Christopher Nolan

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Aprendi a ler em voz alta, com Homero. Tinha uns 16 anos e declamava a Ilíada sozinho no quarto, sem entender metade. Gostava do som antes de gostar do sentido. Foi assim que entrei na literatura, e foi de Homero que saí para a história da arte e para os mármores quebrados que ainda hoje me impulsionam diante de uma vitrine de museu, quando ouso levar meus filhos. Digo isto correndo o risco do pedantismo, e assumo o risco: é a única biografia que tenho para tratar do tema.

Graças a Deus não me tornei um especialista no assunto. Falo por diletantismo. E, sendo diletante, estou ansioso pelo novo filme da Odisseia. Mas hoje não quero falar do épico. Com relação a polêmicas identitárias, tenho mais afinidade. É disso que trata o meu texto.

Christopher Nolan escalou Lupita Nyong’o para Helena de Troia. A mulher mais bela do mundo, filha de Zeus e de Leda, espartana, aquela cujo rosto lançou mil navios – entregue a uma atriz queniana de origem luo. Nolan explicou a escolha pela “força e pela postura” que viu na atriz. Ninguém duvida da força nem da postura de Nyong’o. O que ela não tem, e ninguém tem como ter, é o vínculo com o mito que Homero contou: uma rainha grega, branca, raptada de um palácio grego por um príncipe troiano.

Para os gregos, a beleza era brilho. Leukós, a palavra que traduzimos por “branco”, quer dizer antes de tudo luminoso, e é o que marca o corpo dos........

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