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“O Agente Secreto”: quando o autor confisca a obra

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A premiação de O Agente Secreto poderia figurar como vitória do cinema brasileiro. O problema começa quando diretor e ator principal decidem confiscar a recepção da obra.

Nas entrevistas após a cerimônia, Kléber Mendonça Filho e Wagner Moura definiram pertencimento ideológico, nomearam adversários e traçaram suas fronteiras simbólicas. O diretor declarou que o Brasil sofreu “guinada drástica à direita”, chamou Jair Bolsonaro de “irresponsável de forma épica” e situou o cinema como “expressão de lutos” coletivos. Wagner Moura foi além: classificou o ex-presidente como “fascista de extrema direita” e definiu o filme como “manifestação física dos ecos da ditadura”.

Tudo isso pode ser verdade. Ambos têm todo direito de manifestar essas posições. A questão aqui é em outra: como essas declarações delimitam a representação do filme. A partir daquele instante, O Agente Secreto deixou de representar o Brasil para representar a tribo ideológica de seus criadores.

Cinema é arte; arte articula sensibilidades, afetos, perspectivas. Mesmo quando trata de dramas políticos universais, o discurso ideológico dos criadores fixa limites à recepção. A obra ganha essa moldura prévia que só agrada aos seus. O espectador já sabe de que lado deve ficar........

© Gazeta do Povo