O fim do Pacto de Ilha Grande
“O Brasil será um dos países mais respeitados do mundo no crime organizado.” (Luiz Inácio Lula da Silva, durante a cerimônia de sanção do PL Antifacção, em março de 2026)
Para compreender por que a decisão do governo Trump de classificar o Comando Vermelho e o PCC como organizações terroristas provocou tanto frenesi no campo lulopetista – e nos seus satélites habituais no mercado financeiro, na academia e no establishment midiático –, é necessário recuar até onde tudo começou: uma ilha no litoral do Rio de Janeiro, nos anos finais da ditadura militar.
No Instituto Penal Cândido Mendes, na Ilha Grande, militantes da Ação Libertadora Nacional, do MR-8 e de outros grupos de esquerda armada dividiam celas com assaltantes, ladrões de banco e criminosos comuns. Os guerrilheiros tinham algo que os bandidos não tinham: disciplina clandestina, estrutura celular, códigos de solidariedade interna, métodos de resistência coletiva ao Estado. Mais do que um catecismo marxista-leninista, o que se ministrou nesse convívio foi algo mais durável e mais perigoso: um conjunto de técnicas organizacionais que transformou uma gangue de presídio na primeira grande facção criminosa moderna do Brasil. Nasceu assim a Falange Vermelha, antecessora direta do Comando Vermelho. O lema era “Paz, Justiça e Liberdade” – vocabulário cuja proveniência dispensava maiores apresentações.
Nos anos 1960, a esquerda revolucionária brasileira havia absorvido a ideia de que o bandido poderia ser agente disruptivo da ordem burguesa
Nos anos 1960, a esquerda revolucionária brasileira havia absorvido a ideia de que o bandido poderia ser agente disruptivo da ordem burguesa
Antes que acidente, tratava-se ali do desdobramento natural de uma reorientação doutrinária que o historiador marxista Jacob Gorender apontou em Combate nas Trevas: nos anos 1960, a esquerda revolucionária brasileira havia absorvido, sob influência de Fanon, Guevara e Mao, a ideia de que o lumpemproletariado – o marginal, o delinquente, o bandido – poderia ser “arrancado da colaboração com a polícia e convertido em........
