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Lisboa e o resto do país

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03.04.2026

Falo de barriga cheia. Nasci e cresci na segunda maior cidade de Portugal: o Porto. Aqui, respira-se uma certa autonomia; há emprego, identidade, cultura e uma vida social que não pede licença a ninguém. Mas, mesmo no Porto, o centralismo faz sentir o seu peso. Percebemos cedo que, para atingir certos patamares, para ganhar o que o talento merece, ou para aceder a decisões que mudam o rumo das coisas, quase sempre é preciso apanhar o Alfa em direção a Lisboa.

Ora, se o Porto sente esta gravidade, imagine-se o que sobra para Leiria, Coimbra, Braga e Aveiro. Aqui, o impacto do "umbiguismo" nacional é brutal.

Recentemente, quando a tempestade varreu o distrito de Leiria, o silêncio foi ensurdecedor. Se um telhado voa na Avenida da Liberdade, temos diretos de três horas e especialistas em meteorologia de plantão. Quando Leiria fica às escuras, com estradas cortadas e prejuízos por contabilizar, a cobertura é um rodapé, uma nota breve entre dois temas de política partidária. Para o radar mediático e político, Leiria não existe. Coimbra não existe. Aveiro não existe. São reduzidas a "pontos de passagem" ou, no pior dos cenários, a simples paisagem de fundo para quem segue na A1.

Mas o problema não se fica pela forma como é noticiado; prolonga-se na forma como é tratado. Quando as câmaras se desligam e a atenção regressa à capital, começa uma segunda tempestade, mais discreta, mas igualmente destrutiva: a da burocracia centralista. Fora de Lisboa, o que deveria ser resposta rápida transforma-se num percurso lento, feito de formulários e decisões que tardam em chegar. O apoio que era urgente perde-se no tempo e, quando finalmente aparece, já chega depois dos danos consolidados ou dos negócios encerrados. É neste desfasamento que se torna evidente que nem todas as urgências têm o mesmo peso.

Este centralismo não é apenas uma questão de vaidade geográfica; é uma barreira económica e social. Quando os investimentos chegam tarde e as soluções demoram, estamos a dizer a quem vive fora da capital que a sua segurança e o seu bem-estar são secundários.

E se estas cidades médias, que são motores económicos do país, são ignoradas, o que resta para as aldeias à volta? Para quem resiste a mais de 140 km de Lisboa, em Bragança, na Guarda ou em Portalegre, o centralismo é uma asfixia diária. Não é só a falta de concertos ou de lojas de luxo; é a ausência do básico. É o fecho da urgência, é a escola que não abre, é a oportunidade de emprego que obriga a fazer as malas. É sentir que se vive num país de duas velocidades, onde o código postal determina se tens direito a futuro.

Diz o ditado popular que “Portugal é Lisboa e o resto é paisagem”. O problema é que nos habituámos a tratar a paisagem como algo inanimado, que não sofre, não produz e não precisa de atenção. Enquanto Lisboa concentra os salários de topo, os centros de decisão e os grandes palcos, o resto do país espera. Espera que o centro decida olhar para o lado. Espera que as verbas do PRR não se percam no caminho. Espera, simplesmente, que o sol volte a brilhar depois da tempestade que ninguém viu na televisão.

O centralismo português é a nossa maior falha estrutural. Cria um deserto de oportunidades num país tão pequeno que devia ser todo ele um centro. O Porto sobrevive pela força da sua história e acumulação de massa crítica, mas nas cidades médias e no interior, o centralismo é cru e impiedoso. Quem fica, sente-se cidadão de segunda.

Portugal precisa urgentemente de perceber que o país não termina onde a CRIL acaba. Até lá, continuaremos a ser um país de vista curta, onde a tempestade só é real se molhar os pés a quem decide em Lisboa. O resto? O resto continuará a ser só paisagem.

Artigo publicado no âmbito de uma parceria editorial entre o Expresso e o Global Shapers Porto Hub.


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