Tens razão, Jonas
Tens razão, Jonas. Há uma direita que não passa cartão ao 25 de abril, antes o enxota, e uma esquerda que quer a direita fora do 25 de abril. Para o bem do 25 de abril e da democracia que esse enxertou, ambas são minoritárias. Depois estamos todos.
Todos vírgula: aqueles que se reveem no 25 de abril. Temos a sorte de não ser preciso caçá-los. Eles falam, escrevem, declaram-se. Identificam-se com cravo ou sem cravo. Pensam e afirmam: o 25 de abril acabou com uma ditadura senil, decrépita e a cair de podre. Faltava o empurrão que os capitães deram.
Era um regime ao contrário: contra o tempo e a decência. Foi o último a descolonizar, em contramão com as Nações Unidas; foi o primeiro a promover figuras como o agente Tinoco, enquanto desprezava figuras como o teu avô, Mário Soares.
Paulo Baldaia
Paulo Baldaia
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Esse combateu o regime por fora, enquanto Francisco Sá Carneiro o combatia por dentro. Soares defendia a democracia à esquerda do centro, tal como Sá Carneiro, segundo o próprio. O líder do PS era visita de casa dos presentes na Internacional Socialista; o líder do PPD queria ser membro dela. O partido nunca lá entraria, porque a realidade atravessou-se.
Sá Carneiro, vindo de uma família da burguesia nortenha e das equipas de casais de Nossa Senhora, representaria a Direita. Querendo ou não, como Vasco Pulido Valente, que acompanhou Soares e Sá Carneiro, lembra, foi ele que fundou a Direita desempoeirada, com a primeira Aliança Democrática.
Era essencial que, no pós-25 de abril, a Direita governasse em liberdade e apoiada no voto. Soares sabia-o e, como tal, não se ressentiu por perder eleições. Nunca haveria democracia se fosse coxa e inclinada à esquerda. Foi por isso que, ainda em ditadura, pediu a vários católicos que semeassem a terra que daria a Direita democrática.
Acontece que, entre nós, nem todos pensam assim num regime pluralista. Há que dizê-lo: uma parte da esquerda que desce a Avenida todos os anos não queria esta democracia. Queria uma democracia popular, sem o Parlamento dos notáveis, conduzida pela verve revolucionária em direção sabe Deus onde. Há que também dizê-lo: há uma parte da direita que nunca aceitou o 25 de abril e tem-no como data mãe da traição à Pátria.
Segundo Paulo Portas, disse-lhe um dia Fraga Iribarne, antigo Ministro de Francisco Franco e fundador do Partido Popular espanhol: “Paulo, a tu derecha la pared”. A parede dizia respeito à parte da direita que nunca aceitou de bom grado o regime de 74, a democracia, as liberdades públicas, e que conveio integrar nesse mesmo regime, sob pena de andar à solta.
Entretanto, com o passar das décadas, a parede, rachado o betão, encontrou-se pela abstenção, pelo CDS – não havendo mais onde se encostar - e nas lamúrias de café. Conhecemo-las. A crença de que Portugal seria uma Pátria além-mar e de tamanho XXL, com o destino em Luanda e a riqueza em África. A ideia de que Portugal era multirracial, integrador e, por isso, único entre os vários projetos coloniais. A noção, o devaneio, de que Portugal era especial porque percorria o seu caminho de costas, enquanto a Europa caminhava de frente. Tudo isto caiu, como um muro preso pelo vento, a 25 de abril de 1974.
Não sou de esquerda como, provavelmente, a grande maioria que desce a Avenida. Além do essencial, poderemos não crer nas mesmas coisas ou com a mesma vivacidade. Talvez, sendo de esquerda, essa grande maioria creia, por definição, mais no futuro do que eu. Quiçá diga melhor da natureza humana do que eu. E, no entanto, podíamos ser largos que caberíamos todos na Avenida. Como eles, eu adoro o Carmo, adoro a Grândola, adoro a Paz, o Pão e o resto dos refrões que nos fazem voltar ao “dia inicial, inteiro e limpo” da Sophia e de Portugal.
As datas têm cheiro e nem todos gostam dele. Por isso traduzamos o que é descer a Avenida da Liberdade, no tal dia, aqui, não cabendo num retângulo de cartão. É louvar uma Lei que nasceu para não nos proibir de ser humanos. É apoiar o sufrágio sério, secreto e universal. É apoiar a hipótese de nos desenvolvermos como a maioria do povo quiser, sem perseguir, prender ou torturar a minoria que queria diferente. É escrever e publicar o que nos apetecer, quando nos apetecer.
Isto e mais – e é no mais que, graças ao 25 de abril, vamos discordando, quando discordamos. Se assim for, digo eu, incluímos e não excluímos.
Assim, Jonas, de facto não seremos dois nem dois milhões.
