Deixem as burcas em paz

O recente debate entre o historiador Pacheco Pereira e o líder do Chega expôs a ferida aberta da nossa democracia: a tentativa de sequestrar a religião para fins de exclusão. Quando Pacheco Pereira confrontou André Ventura com a natureza profundamente anticristã das suas políticas, a resposta de Ventura foi o derradeiro refúgio do populismo: "Somos os mais cristãos porque lutamos contra a islamização, acabámos com a burca".

É aqui que o equívoco se torna perverso. Ventura proclama-se um profeta moderno, tentando convencer o país de que ir à missa é um atestado automático de bondade. Mas, ao usar a "Lei da Burca" como arma de arremesso, o líder do Chega apenas confirma o que já sabíamos: o objetivo nunca foi defender as mulheres, mas sim fabricar um "bicho-papão" para colher votos no campo do ódio.

A intenção desta obsessão legislativa é simples e macabra: promover a revolta contra um problema inventado. O populismo vive da criação de necessidades fictícias para vender soluções opressivas. Quem se insurge contra a burca no Parlamento sem nunca ter falado com uma mulher muçulmana não está ao lado da liberdade. Está, sim, no campo dos que se sentem no direito de policiar o corpo feminino.

Através do meu percurso na MEERU e na Academia AMAL (onde trabalhamos diariamente na integração laboral de mulheres migrantes), conheço de perto o que Ventura prefere ignorar: a agência destas mulheres. A escolha que fazem ao usar o Hijab, com a mesma naturalidade com que a minha avó escolhia a cruz que colocava ao peito. Dizer que proibir este gesto é um “ato cristão” é um insulto à própria génese do Cristianismo, que se funda no acolhimento ao próximo e na dignidade da pessoa humana.

A cultura e a lei dos homens é que subjugam a mulher: não é o Islão, nem o Cristianismo. É a interpretação instrumental que o populismo faz da fé. Ventura usa a missa como escudo e a burca como espada, mas esquece-se de perguntar às visadas: “o que é que tu queres?”.

Parece que, para este novo "messianismo" político, as mulheres não podem ganhar. Se se cobrem, são oprimidas por decreto; se mostram o corpo, são alvo de outro tipo de julgamento moral. Em qualquer dos casos, a agência nunca é nossa. A “Lei da Burca”, tal como o discurso da “invasão” ou “substituição populacional”, é sobre controlo e poder. Não é sobre proteção de valores europeus.

Ao contrário do que Ventura apregoa no púlpito dos debates, ser cristão, ou humano, não passa por policiar o guarda-roupa alheio, mas por garantir que cada mulher, seja muçulmana, católica ou ateia, tenha a liberdade soberana de decidir o seu caminho. A suposta "preocupação" com o bem-estar das mulheres é apenas um véu transparente que tenta esconder o preconceito e a demagogia da exclusão. Ventura não quer salvar ninguém; quer apenas instrumentalizar o corpo feminino para propagar uma agenda de ódio. Não nos deixemos enganar: quem usa a liberdade para proibir a liberdade não defende valores, defende o controlo. Deixem o hijab, a burca e a minissaia em paz. Deixem, de uma vez por todas, as mulheres em paz.

Esta coluna de opinião resulta de uma parceria entre a Geração E e a Associação Próxima Geração. A Próxima Geração é uma associação cívica multipartidária que promove a participação democrática dos jovens. As opiniões expressas neste artigo são da exclusiva responsabilidade do autor e não representam necessariamente a posição da associação.


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