Nunca conheci quem tivesse levado porrada num questionário de Proust. Todos os inquiridos são campeões em tudo. Chega esta altura do ano e aparecem os pêssegos, as cerejas e os questionários de Proust. Os jornalistas ficam com vontade de questionar e as pessoas ficam com vontade de responder. Deve ser do calor. A única pergunta que interessa, nestes questionários, é a seguinte: “Qual é o seu maior defeito?” E seria uma iniciativa de elevado valor sociológico se as pessoas respondessem com sinceridade. Teríamos oportunidade de confirmar finalmente se é justificada a interpretação que algumas pessoas começaram a dar ao facto de a última palavra de “Os Lusíadas” ser “inveja”. A julgar pelos questionários de Verão, essa interpretação não tem razão de ser: não há um único invejoso neste país. Zero pulhas, também. Nenhum avarento. Hipócritas, nem vê-los. O que somos é um país de teimosos. A esmagadora maioria dos inquiridos é teimosa. Recordo que o questionário pede o maior defeito. Ora, a teimosia não chega a ser um defeito. É uma idiossincrasia muito decente para apresentar em público. Gente muito mais defeituosa já foi canonizada. Além dos teimosos, há um pequeno grupo cujo maior defeito é uma qualidade em excesso. Excesso de perfeccionismo, excesso de lucidez e excesso de franqueza são alguns dos mais populares. Não deve ser fácil ser tão virtuoso que as virtudes transbordam e passam a ser defeitos. Por fim, e não menos interessante, há as pessoas cujo maior defeito é, na verdade, um defeito dos outros. “Confiar demais nas pessoas”, por exemplo, é um aleijão bastante comum. São inquiridos cujo maior defeito cessaria de existir se eles vivessem numa ilha deserta. Uma tarefa interessante seria descobrir quem são os patifes em quem estes inquiridos depositaram confiança excessiva. Não são certamente os teimosos nem os excessivamente perfeccionistas, lúcidos e francos. A resposta mais provável é esta: em princípio, esse patife sou eu. Deixei, aliás, de responder a estes questionários porque era o único que confessava defeitos de monta. E depois ainda anunciava com orgulho (como agora) essa característica excepcional de ser o inquirido mais malformado — porque, naturalmente, além do mais também sou vaidoso. Cometo com grande regularidade quase todos os pecados capitais, e só não cometo mais vezes porque a preguiça, que é um deles, não me deixa. Precisava, talvez, de ser mais teimoso. Quem me dera.

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QOSHE - Questionário de Proust em linha recta - Ricardo Araújo Pereira
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Questionário de Proust em linha recta

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20.08.2022

Nunca conheci quem tivesse levado porrada num questionário de Proust. Todos os inquiridos são campeões em tudo. Chega esta altura do ano e aparecem os pêssegos, as cerejas e os questionários de Proust. Os jornalistas ficam com vontade de questionar e as pessoas ficam com vontade de responder. Deve ser do calor. A única pergunta que interessa, nestes questionários, é a seguinte: “Qual é o seu maior defeito?” E seria uma iniciativa de elevado valor sociológico se as pessoas respondessem com sinceridade. Teríamos oportunidade de confirmar finalmente se é justificada a interpretação que algumas pessoas começaram a dar ao facto de a última palavra de “Os Lusíadas” ser........

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