Aconteceu esta semana e está no YouTube. O apresentador de um programa de informação da Globo está a falar sobre Emmanuel Macron com quatro convidados e, dirigindo-se à única mulher do painel, diz: “Carol, a gente dá uns escorregões, às vezes, não é?, e a gente tem de lembrar para não dar escorregão. Há pouco, você usou uma palavra que a gente não usa mais.” A Carol reconhece imediatamente o pecado: “Eu falei ‘denegrir’. Perdão.” O apresentador continua: “A gente está aqui para isso. Por isso é que eu quis chamar a atenção, para que você mesmo se pudesse desculpar e a gente possa seguir. A gente não fala mais isso, não é, Carol?” A Carol retoma o acto de contrição: “Não, não se usa mais essa palavra. Eu queria na verdade dizer que é como se estas acusações quisessem diminuir ou manchar a imagem deste homem. Usei uma palavra que é claramente racista. Peço perdão por isso.” Todos os intervenientes no programa ficaram mais aliviados, e a emissão prosseguiu. Já eu, fiquei preocupado. Se a palavra “denegrir” é claramente racista e eu nunca fui capaz de ver o que é claro, isso só pode querer dizer que eu sou racista também. Como calculam, foi um choque. A maior ofensa que eu julgava ter dirigido às outras pessoas, fosse qual fosse o seu género, cor ou orientação sexual, era considerá-las iguais a mim — uma injúria bastante pesada, admito. Mas antigamente, parece-me, era muito mais difícil ser racista.

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O que é claro em denegrir

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05.06.2022

Aconteceu esta semana e está no YouTube. O apresentador de um programa de informação da Globo está a falar sobre Emmanuel Macron com quatro convidados e, dirigindo-se à única mulher do painel, diz: “Carol, a gente dá uns escorregões, às vezes, não é?, e a gente tem de lembrar para não dar escorregão. Há pouco, você usou uma palavra que a gente não usa mais.” A Carol reconhece imediatamente o pecado: “Eu falei ‘denegrir’. Perdão.” O........

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