Quando verifiquei que tanto o Presidente da República como o primeiro-ministro decidiram dizer aos jornalistas que ainda não tinham lido o artigo de Cavaco Silva, dispus-me também a não ler o texto. Se aquele era o procedimento adoptado pelos mais altos dignitários do país, algum mérito haveria de ter. Devo dizer que estou satisfeito. A não leitura do artigo foi-me bastante proveitosa e até proporcionou algum prazer. Talvez torne um pouco mais difícil a tarefa de escrever sobre o texto, mas a minha carreira académica demonstra sem margem para dúvidas que é possível desconhecer por completo um assunto e ainda assim dissertar convincentemente sobre ele. Claro que, apesar de não ter lido o artigo, eu já tinha ouvido falar sobre ele. Soube que tinha sido publicado um texto no jornal “Observador” com o título “Fazer mais e melhor do que Cavaco Silva”, e fiquei imediatamente curioso para saber quem seria o autor que, em 2022, ainda se lembrava de elogiar Cavaco Silva. Depois disseram-me que era o próprio Cavaco Silva, o que me pareceu fazer sentido. Sempre tive a sensação de que Cavaco Silva estaria entre os maiores admiradores de Cavaco Silva. Outros cidadãos que optaram, incompreensivelmente, por ler o artigo, informaram-me do seguinte: para Cavaco Silva, um dos principais méritos de Cavaco Silva foi a sua inclinação para o diálogo. Eu era pequeno na altura em que ocorreram as façanhas de Cavaco, coadjuvado por Dias Loureiro, Oliveira e Costa e Duarte Lima, mas os diálogos de que me lembro melhor são, de facto, impressionantes. Por exemplo, a conversa entre uns bastões e umas cabeças, no tabuleiro da ponte. É o tipo de diálogo que produz um som que não se esquece. Ou o interessante diálogo entre Cavaco, de um lado, e agricultores e pescadores, do outro. Cavaco falava-lhes na PAC (sigla que, curiosamente, reproduz competentemente o som de bastões a baterem na cabeça) e os agricultores e pescadores respondiam com um ronco. Não porque fossem agressivos, mas porque tinham fome. O ronco vinha do estômago. Uma vez que acabavam de perder o seu ganha-pão, tinham dificuldade em contribuir de outro modo para a conversa.

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Fazer-se mais e melhor como Cavaco Silva

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10.06.2022

Quando verifiquei que tanto o Presidente da República como o primeiro-ministro decidiram dizer aos jornalistas que ainda não tinham lido o artigo de Cavaco Silva, dispus-me também a não ler o texto. Se aquele era o procedimento adoptado pelos mais altos dignitários do país, algum mérito haveria de ter. Devo dizer que estou satisfeito. A não leitura do artigo foi-me bastante proveitosa e até proporcionou algum prazer. Talvez torne um pouco mais difícil a tarefa de escrever sobre o texto, mas a minha carreira académica demonstra sem margem para dúvidas que é possível desconhecer por completo um........

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