Em memória das máquinas de fazer pão
Talvez já tenha passado tempo suficiente para que possamos apresentar um balanço definitivo da figura que fizemos na pandemia. Quando, no início, o mundo foi tomado por uma obsessão com a aquisição de papel higiénico, estávamos longe de saber que esse iria ser um dos nossos momentos mais dignos. Depois, a Humanidade dedicou-se a trilhar um caminho de sentimentalismo e de lamechice que, a esta distância, só pode embaraçar-nos. Primeiro, exprimimos alguns entusiasmos completamente infundados. O primeiro foi com a panificação. Por uma razão qualquer, um dos mais populares projectos da pandemia era fazer pão. De vez em quando, as pessoas decidem que gostariam muito de praticar, como entretenimento, actividades que rejeitariam fazer profissionalmente. Durante um tempo, toda a gente achou que ser padeiro amador era o máximo. Acontece o mesmo em jogos de telemóvel. Ninguém sonha ser repositor de supermercado, mas o jogo “Goods Sort Master”, em que é preciso dispor detergentes, caixas de cereais e gelados em grupos de três, cada um na sua prateleira, atrai milhares de jogadores. Na vida real, ninguém ambiciona dedicar-se a descascar, cortar e fritar batatas, mas o jogo “Potato Rush” seduz os utilizadores com essa possibilidade. A promoção do jogo diz: “‘Potato Rush’ é um jogo offline viciante e gratuito que traz a emoção de empilhar batatas! Recolha uma variedade de batatas, coloque-as em caixotes, construa pilhas gigantescas e venda aos clientes por recompensas lucrativas. Comece com uma única batata e crie uma impressionante linha de batatas. Actualize a sua correia transportadora para transformar batatas em batatas fritas”. Eu sou apenas uma máquina de fazer pão, desprovida de emoções, e por isso falta-me capacidade para compreender a “emoção de empilhar batatas”. Tal como não sou capaz de me entusiasmar com a actualização de uma correia transmissora, como parece acontecer com os humanos do século XXI. O entusiasmo que hoje é dirigido para a actualização de uma correia transmissora, nos tempos da pandemia foi dirigido para o pão. Entretanto, as máquinas de fazer pão foram enviadas para o desterro dos electrodomésticos: a prateleira de cima do armário, ao lado da iogurteira, do espiralizador de curgete e da panela de fondue.
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