Não, não é a AD que tem que optar entre o Chega e o PS. O Chega e o PS é que têm que optar por viabilizar ou não viabilizar as propostas da AD. Há quem esteja na fase do “contra”; ao Governo que amanhã toma posse cabe apresentar um programa “a favor” de Portugal .

Orwell, n’O Triunfo dos Porcos retrata uma revolução liderada por porcos contra os humanos opressores. O que me interessa da história, hoje, é que a “bondade” da oposição rapidamente dá lugar a uma inexorável lição: se não sabes por que pugnar, os sonhos utópicos rapidamente dão lugar a pesadelos distópicos. Eis o meu ponto: a mobilização eleitoral até se pode conseguir “contra” alguém, contra algum grupo específico ou contra “este estado das coisas”, mas dificilmente perdura, em ambiente democrático, sem um propósito “a favor”. Costa, por exemplo, conquistou o poder e governou 8 anos contra Passos Coelho e contra a direita, mas foi o “favor” aos seus que o manteve.

Há, portanto, um momento em que a agregação de gente “contra” tem que ser mobilizada “a favor” de algo. Foi isso que, há umas semanas, quis dizer quando defendi que o Chega tinha conquistado, nas urnas, o direito à “prova das propostas”. E, mais do que isso: deveria ser obrigado a essa mesma prova, à prova da responsabilidade. O mesmo se pode e se deve dizer do PS que, depois de quase uma década de mau governo, se prepara para uma reedição da narrativa “o Diabo é a direita”. É pouco. E isso tem que ser dito. E combatido. Sem indulto.

E é por tudo isto que as declarações de Hugo Soares, segundo as quais a AD quer “dialogar com todos, em especial com o Partido Socialista” são um erro. Não por causa da primeira parte da afirmação: num mundo político polarizado, evidenciar abertura para o diálogo com todas as forças políticas encerra em si um raro virtuosismo democrático. Mas por causa da segunda parte. Por duas razões: a primeira, porque coloca o ónus da convergência do lado de quem tem a iniciativa política; a segunda, porque sugere – contra o sentido de voto de uma grande maioria de eleitores e contra qualquer módico de razão – que a AD deve privilegiar o PS nas negociações.

Vejamos. Se cabe à AD governar e, governando, ter a iniciativa política, cabe ao Chega e ao PS (e aos demais partidos) aprovar ou rejeitar as suas propostas. A AD deve dialogar, claro, mas o diálogo deve ser estabelecido em função das propostas e não em função dos interlocutores; e, ademais, se a lógica fosse a dos interlocutores, nunca o PS poderia ser o privilegiado nessas negociações. Mas isso é outra conversa, que, aliás, tenho mantido aqui neste espaço nos últimos anos.

Mas outra abordagem, mais maniqueísta, menos pragmática e mais em uso por estes dias, tende a subverter o debate político: alijando-o do propósito da governação em favor da “moral” do Governo. Muitos concordarão com esta abordagem, divergindo depois na sua concretização: uns, dirão que o Chega é tóxico; outros, dirão que o PS é tóxico. E, neste debate, obrigam a AD a fazer o que não deve nem tem que fazer: escolher em função de uma alegada “natureza” dos partidos e não em função da circunstância e validade das propostas. Fazê-lo, com estes interlocutores, à esquerda e à direita, será um erro fatal para a AD: porque na soma final, em ambos os casos, haverá sempre mais vício do que virtude, mais ardil do que sentido de Estado; em síntese, desse ponto de vista, ambos são tóxicos.

No limite, avisam, o PS e o Chega podem deitar o Governo abaixo. Pois que assim seja. O PS e o Chega têm nas suas mãos a oportunidade de se entenderem, num propósito e num momento, para derrubar o Governo. Façam-no. Como ainda vivemos em democracia, caberá ao povo avaliar depois essa convergência.

Mas, para isso, o debate não pode persistir nestes termos. Respondam e posicionem-se em função das coisas da governação e não de pantominices retóricas: o que é que têm a dizer sobre como resolver os problemas na saúde? E na educação? E nas forças de segurança? E na justiça? São necessários posicionamentos concretos em função de políticas concretas e não proclamações vagas em nome de princípios equívocos. Ao novo Governo caberá marcar a agenda e definir os termos dessa discussão.

Mantendo e alargando a metafóra, para regozijo do PAN (ou talvez não), o país está repleto de “porcos” revolucionários e de “serpentes” manhosas, à esquerda e à direita. A AD, essa, está entalada entre uma esquerda oscilante entre o extremismo revolucionário wokista e o calculismo de uma maçonaria de interesses, e uma “nova direita” oscilante entre o extremismo revolucionário da IV República e a sofreguidão de substituir os “tachos” dos outros por panelas suas. A verdade é que nem o “triunfo dos porcos” revolucionários nem o ardil sibilino das “serpentes” serve ao país.

A este Governo, que amanhã toma posse, não será oferecido estado de graça. No Parlamento, de um lado e do outro, nas ruas e nos gabinetes, de políticos, comentadores, sindicalistas e “activistas”, os ataques surgirão todos os dias. Aliás, não sem surpresa, leio e ouço já por aí muitas dessas criticas, regadas a hipocrisia e mentira. Mas o país não percebe a ejaculação precoce. Se no elenco governativo estivessem o Rato Mickey, o Pato Donald, o Pateta e Cª. Ltda., porquanto substituissem o Cabrita, o senhor que não sabia o que era um paiol, aquelas senhoras da Agricultura e da Coesão, o ministro que despachava os assuntos da TAP por Whatsapp, o Galamba, a jovem da Habitação e por aí fora, o país já estava a ganhar. E o que é certo é que o Governo parece genericamente equilibrado e competente. Podia, claro, ser melhor; mas o país está cansado de ver governos piores.

Boa notícia (ou má, dependendo da inclinação do estimado leitor): a História não acaba aqui. A História nunca acaba “aqui”, salvo na cabeça dos arrogantes e dos ingénuos. Mas este é um momento charneira. Até agora, Nelson Rodrigues, que postulou que os idiotas iam tomar conta do mundo, parece ter razão. Por cá, pelo menos, a AD tem a oportunidade de inverter a tendência. Vamos ver se o consegue fazer. Não se recomendam grandes concessões.

Pedro Gomes Sanches escreve de acordo com a antiga ortografia.

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Vencer o Triunfo dos Porcos no Reino das Serpentes

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01.04.2024

Não, não é a AD que tem que optar entre o Chega e o PS. O Chega e o PS é que têm que optar por viabilizar ou não viabilizar as propostas da AD. Há quem esteja na fase do “contra”; ao Governo que amanhã toma posse cabe apresentar um programa “a favor” de Portugal .

Orwell, n’O Triunfo dos Porcos retrata uma revolução liderada por porcos contra os humanos opressores. O que me interessa da história, hoje, é que a “bondade” da oposição rapidamente dá lugar a uma inexorável lição: se não sabes por que pugnar, os sonhos utópicos rapidamente dão lugar a pesadelos distópicos. Eis o meu ponto: a mobilização eleitoral até se pode conseguir “contra” alguém, contra algum grupo específico ou contra “este estado das coisas”, mas dificilmente perdura, em ambiente democrático, sem um propósito “a favor”. Costa, por exemplo, conquistou o poder e governou 8 anos contra Passos Coelho e contra a direita, mas foi o “favor” aos seus que o manteve.

Há, portanto, um momento em que a agregação de gente “contra” tem que ser mobilizada “a favor” de algo. Foi isso que, há umas semanas, quis dizer quando defendi que o Chega tinha conquistado, nas urnas, o direito à “prova das propostas”. E, mais do que isso: deveria ser obrigado a essa mesma prova, à prova da responsabilidade. O mesmo se pode e se deve dizer do PS que, depois de quase uma década de mau governo, se prepara para uma reedição da narrativa “o Diabo é a direita”. É pouco. E isso tem que ser dito. E combatido. Sem indulto.

E é por tudo isto que as declarações........

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