Tenho duas notícias, uma boa e uma má: a boa é que Jesus Cristo não nasceu exactamente neste dia há 2023 anos; a má é que os votos superficiais de bom e feliz Natal que andaram por aí a distribuir talvez tenham agudizado, pelo contraste, a tristeza e desesperança profundas de alguns que os receberam.

Lamento, mas dificilmente se encontra felicidade no coração de quem perdeu o pai. De quem perdeu a filha. De quem viu o seu amor traído. De quem teve o sonho desfeito. Do amante não correspondido. De quem já não tem emprego. Daquele a quem o álcool já não acalma a dor. Do doente sem cura. Do país em guerra. Não se vislumbra felicidade num túnel sem luz. É difícil engolir a bondade com um nó na garganta. Encher o coração com um aperto no peito. A festa da família torna-se difícil quando não há família, ou quando a casa ficou irremediavelmente perdida para a hipoteca.

Eis, nesta negritude, o retrato de um país inteiro de gente infeliz. Disse país? Queria dizer Humanidade.

Disse que o facto de Jesus Cristo não ter nascido no dia de hoje, há exactamente 2023 anos, era uma boa notícia. E é uma boa notícia, porque o Natal não é exacta nem primordialmente uma festa de celebração do presente, de um momento: é, antes, uma festa de esperança; e a esperança é coisa de futuro. E é aqui que reside mais um dos paradoxos libertadores do Natal.

É que do lugar e tempo onde nos encontramos só podemos sentir verdadeiramente o que sentimos hoje e, no limite, recordar o que vivemos no passado. E mesmo essas recordações, essas memórias, sejam boas ou más, talvez não sejam mesmo reais, mas tão só reconstruções narrativas da nossa experiência, atribuições de significado com propósitos distintos da mera descrição factual.

E se é verdade que o Natal, como todos os tempos relevantes de espiritualidade, tem uma componente de acção de Graças, de agradecimento por tudo o recebido mesmo que a tristeza e a dor que nos dominam nos limite nesse reconhecimento, tem uma inalienável vocação de futuro. Uma vocação de futuro que é, pela natureza frágil da vida (“somos pó”, com uma vida transportada em “vasos de barro”), um desafio à transcendência.

Uma grávida, como Maria durante o Advento, está, diz o povo, de esperanças. E o parto é, desejavelmente, não nos traiam as circunstâncias, o momento dos votos de felicidades. Como durante a gravidez se desejou uma “hora pequena”. Estes votos são sempre votos para o futuro. E nesses votos, o que ali se expressa é um acto de Fé, um voto de confiança.

Gosto sempre, por alturas do Advento, recordar as Antífonas do Ó. É comum, na tradição católica, cantarem-se estas súplicas ao Senhor durante o tempo de espera: Veni ad docendum nos viam prudentiæ (Vinde ensinar-nos o caminho da prudência); Veni ad redimendum nos in brachio extento (Vinde resgatar-nos pelo poder do Vosso braço); Veni ad liberandum nos; jam noli tardare (Vinde libertar-nos; não tardeis jamais); Veni, et educ vinctum de domo carceris, sedentem in tenebris et umbra mortis (Vinde e libertai da prisão o cativo

assentado nas trevas e à sombra da morte); Veni et salva hominem quem de limo formasti (Vinde e salvai o homem que do limo formastes); Veni ad salvandum nos, Domine Deus noster (Vinde salvar-nos, Senhor nosso Deus). A coisa é complexa e sofisticada: estas súplicas surgem depois da evocação do Senhor, expresso sob múltiplas formas: Sapientia, Adonai, Radix, Clavis, Oriens, Rex, Emmanuel. Se as primeiras letras destas evocações forem lidas da frente para trás, resulta o acróstico latino ERO CRAS, que quer dizer “serei amanhã, virei amanhã”.

É o presente e o passado, o que de facto vivemos, que fica registado no corpo, na alma, inexoravelmente para memória futura. Se correr bem e se correr mal. Como se a vida fosse, como no acróstico das Antífonas do Ó, um caminho que fazemos sempre de onde nos encontramos a olhar para trás. Porque nunca verdadeiramente viramos as costas ao passado, que nos estruturou ou destruturou, que nos contruiu ou nos destruiu, onde nascemos e onde, seguramente, também morremos para renascer de novo. E só isso é real. Mas tudo o mais, ó, tudo o mais pode ser Natal.

Mesmo que o vosso Natal tenha sido mau e tenha sido triste, o Natal é a promessa de que a esperança existe e que, apesar da noite fria e escura, sabemos que a celebração do dia do Senhor coincide com o Solstício de Inverno e que, daqui em diante, o dia será progressivamente mais longo e tendencialmente mais quente. A todos um Santo e feliz Natal.

Pedro Gomes Sanches escreve de acordo com a antiga ortografia

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Um mau e infeliz Natal, também é Natal

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26.12.2023

Tenho duas notícias, uma boa e uma má: a boa é que Jesus Cristo não nasceu exactamente neste dia há 2023 anos; a má é que os votos superficiais de bom e feliz Natal que andaram por aí a distribuir talvez tenham agudizado, pelo contraste, a tristeza e desesperança profundas de alguns que os receberam.

Lamento, mas dificilmente se encontra felicidade no coração de quem perdeu o pai. De quem perdeu a filha. De quem viu o seu amor traído. De quem teve o sonho desfeito. Do amante não correspondido. De quem já não tem emprego. Daquele a quem o álcool já não acalma a dor. Do doente sem cura. Do país em guerra. Não se vislumbra felicidade num túnel sem luz. É difícil engolir a bondade com um nó na garganta. Encher o coração com um aperto no peito. A festa da família torna-se difícil quando não há família, ou quando a casa ficou irremediavelmente perdida para a hipoteca.

Eis, nesta negritude, o retrato de um país inteiro de gente infeliz. Disse país? Queria dizer Humanidade.

Disse que o facto de Jesus Cristo não ter nascido no dia de hoje, há exactamente 2023 anos, era uma boa notícia. E é uma boa notícia, porque o Natal não é exacta nem........

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