O PSD tem hoje quase 49 anos (e a AD quase 45) e atravessa o que, em linguagem mais ligeira, se pode designar por crise de meia idade. Com esta idade, porém, tem várias oportunidades: está capaz de sair com as amigas ligeiramente mais velhas da filha e com as amigas ligeiramente mais novas da mãe. Infelizmente, este quarentão, às primeiras não oferece charme e às segundas não oferece frescura. Tragicamente, a nenhuma oferece frisson.

Estudo recente, demonstra exactamente isso: as mais novas inclinam-se para aventuras com o jovem Chega e as mais velhas para o “assim como assim, pouco mas seguro” do vetusto PS.

Miguel Sousa Tavares aqui no Expresso, Francisco Mendes da Silva no Público e Rui Ramos no Observador, todos na passada 6ª feira, sinalizaram os riscos que o PSD (e a AD) corre nestas eleições. Simplificando muito o que eles escreveram, arrisco o fraco aforismo: se o sonho comanda a vida, a ausência de sonho não impede o sono. Sono: eis, aqui, o risco a que a AD não se pode entregar.

E, a este propósito, vale a pena falar do Chega que, com tanto ruído e agitação, não deixa ninguém dormir. Há, talvez, no comentário político, um equívoco relativamente ao Chega, que este fim de semana voltou a ocupar todo o espaço mediático: há uma diferença significativa entre o inaceitável programático, por um lado, e o deplorável verbalizado, por outro, e as razões que levam tantos eleitores a sentir-se seduzidos a votar neste partido.

O que é o Chega? Muitos politólogos, para perceber o fenómeno, vão à Declaração de Princípios e ao Programa, vão às declarações dos dirigentes e aos programas eleitorais, vão às propostas no Parlamento e fazem comparações com partidos congéneres. Eu fui ao dicionário.

Chega é a forma, no presente do indicativo, do verbo chegar, na terceira pessoa do singular; também é uma “repreensão, censura ou descompostura”; “um combate de bois (ex.: assistimos a uma chega de bois barrosões; o campo de chegas é vedado)”; “uma expressão usada para mandar parar uma acção ou para fazer calar. = BASTA” (curiosamente a forma usada pelo partido antes de se constituir como Chega). Enfim, sintetizando, poder-se-ia dizer: o estado a que o país chegou merece censura, com refrega se necessário, para que isto pare de uma vez por todas. Creio que isto, por si só, mobiliza compreensivelmente muitos eleitores.

Mas alguém, aqui há uns meses, fez, porventura, afirmação mais incisiva: o Chega não era, então, propriamente um partido, mas apenas uma interjeição. Ora, se é verdade que ninguém espera das interjeições grandes soluções, também é verdade que ninguém, num momento ou outro, abdica de as fazer. E, tendo crescido em número e em volume as interjeições, pode dar-se o caso de o Chega ser mesmo, agora, um partido.

E, por falar em partido, e voltando às aventuras e desventuras românticas da AD, há quem se pergunte obstinadamente se será o partido de Ventura um bom ou um mau partido. Não é esse, agora, o meu ponto.

O meu ponto é que é um partido que lhe disputa as novas e as velhas. E, nesta disputa, como em tantas coisas na vida, temo que só o presente importe. O futuro é demasiado incerto e excessivamente improvável: hoje estamos cá, amanhã talvez não. O passado é o que foi: existe como nostalgia ou como assombração. A AD apostou na nostalgia, o PS, qual marido abusador e manipulador, alimenta a assombração.

Faço aqui um disclaimer: sou um conservador, não tenho nada contra a nostalgia; e sou de direita, tenho tudo a favor de um projecto de tipo AD (como vários artigos escritos ao longo dos anos o provam). Mas são as expectativas que nos tramam. A promoção que esperámos, mas não veio. O amor que demos, mas não chegou. O sonho que alimentámos, mas não se concretizou. O sacrifício por um bem maior que fizemos, mas só doeu. O que era óbvio, mas ninguém viu. Mas, se as expectativas nos tramam, são os sonhos que nos fazem mover. Na ausência de ambos, repito: só o presente importa. E sabemos como o presente vivido pelos jovens tende a ser de loucura e o presente dos velhos tende a ser de prudência.

Volto ao sonho e ao sono: dormir, literalmente falando, com alguém pode ser uma experiência muito íntima, mas dificilmente é esse o critério para escolher companhia. E se a oferta da AD não fizer sonhar, uma noite sem sono com o Chega ou uma “conchinha” com o PS pode compensar mais. Talvez seja a hora da AD acordar. Na política como na vida, partir de zero expectativas, às vezes, é mesmo o melhor lugar para se estar.

Pedro Gomes Sanches escreve de acordo com a antiga ortografia

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Quando se Chega às zero expectativas

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15.01.2024

O PSD tem hoje quase 49 anos (e a AD quase 45) e atravessa o que, em linguagem mais ligeira, se pode designar por crise de meia idade. Com esta idade, porém, tem várias oportunidades: está capaz de sair com as amigas ligeiramente mais velhas da filha e com as amigas ligeiramente mais novas da mãe. Infelizmente, este quarentão, às primeiras não oferece charme e às segundas não oferece frescura. Tragicamente, a nenhuma oferece frisson.

Estudo recente, demonstra exactamente isso: as mais novas inclinam-se para aventuras com o jovem Chega e as mais velhas para o “assim como assim, pouco mas seguro” do vetusto PS.

Miguel Sousa Tavares aqui no Expresso, Francisco Mendes da Silva no Público e Rui Ramos no Observador, todos na passada 6ª feira, sinalizaram os riscos que o PSD (e a AD) corre nestas eleições. Simplificando muito o que eles escreveram, arrisco o fraco aforismo: se o sonho comanda a vida, a ausência de sonho não impede o sono. Sono: eis, aqui, o risco a que a AD não se pode entregar.

E, a este propósito, vale a pena falar do Chega que, com tanto ruído e agitação, não deixa ninguém dormir. Há, talvez, no comentário........

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