Qual é o “terreno comum” entre o Partido Socialista de Soares, da Fonte Luminosa, do 25 de Novembro, do combate ao comunismo, da integração de Portugal na CEE e o os partidos que ainda hoje suspiram pela ex-URSS, que titubeiam quando se lhes perguntam se a Coreia do Norte é uma ditadura, que amam os regimes cubano e venezuelano, que odeiam os Estados Unidos, que preferem os terroristas islâmicos a Israel, que acham que Ucrânia se pôs a jeito e que defendem a saída de Portugal da NATO e da União Europeia?

Qual é o “terreno comum” entre a esquerda social-democrata de inspiração nórdica e humanista e as “novas” esquerdas identitárias, wokistas e ferozes opositoras da Declaração Universal dos Direitos Humanos? Qual é o “terreno comum” entre a esquerda que admirou Mandela e Luther King e a esquerda que ainda hoje admira Fanon e Malcom X?

Em síntese, e em português, qual é o “terreno comum” entre o PS e o PCP e o Bloco de Esquerda?

Aqui há uns anos, alguns dos da designada “ala direita” do PS, e que acabaram agora pragmaticamente a apoiar Pedro Nuno Santos, respondiam a estas perguntas dizendo que não era nenhum. Por essa altura, todavia, António Costa por conveniência e Pedro Nuno Santos por convicção respondiam que era bastante.

E agora? Agora, sabemos qual é a resposta oficial do Partido Socialista. É a mesma de há muitos anos: porquanto a conquista e o exercício de poder esteja em causa, ao PS tudo serve.

Foi este pragmatismo, aliás, que permitiu ao PS governar o país 23 nos últimos 29 anos. E foi com esta afeição pragmática ao poder que levaram o país ao pântano (com Guterres), à bancarrota (com Sócrates) e à estagnação (com Costa). Foi com este pragmatismo que governaram em maioria, em minoria e até tendo perdido eleições. Foi com este pragmatismo e com esta afeição ao poder que erodiram a credibilidade das instituições, destruiram os serviços públicos dos quais se dizem os maiores defensores e “expulsaram” do país, por falta de oportunidades, os nossos jovens mais qualificados.

Certo é que, às perguntas que fiz nos dois primeiros parágrafos deste artigo, a resposta do PS é inequívoca: a “amálgama”, porquanto os conduza ao poder, serve muito bem ao PS. Nesta resposta, bastante realista e pragmática, não há valores, não há moral, não há coerência histórica: só há poder.

E, não obstante sabermos a resposta, é a sua justificação que Pedro Nuno Santos deveria ser obrigado a dar aos portugueses. Todos os dias daqui até 10 de Março. Isso, e a explicação detalhada sobre como é que foi possível ao PS tanta incompetência no governo da Nação, que nos conduziu a este deserto de esperança, tantas vezes motivada por alucinações ideológicas, como na saúde e na educação. Isso, e o confronto crítico com o chorrilho de disparates, populismo e demagogia a que se entregou esta semana em Bruxelas, agitando novamente o fantasma da extrema-direita e desqualificando os seus adversários do centro-direita, exortando para os riscos de uma “amálgama” com extremistas e populistas que, na verdade, em Portugal, e até hoje, só existiu à esquerda pela mão do seu partido e por sua própria acção empenhada.

Usei propositadamente as expressões “terreno comum” e “amálgama”, porque foram exactamente essas as expressões usadas, há quase quatro anos, no manifesto A clareza que defendemos, do qual fui um dos subscritores, e que tem moldado todo o debate político em Portugal, manietando todas as forças políticas à direita do PS, com a colaboração convicta de boa parte da comunicação social. Pessoalmente, repito tudo o que ali se escreveu: Reagan não é Trump, a democracia iliberal de Orban não é a democracia-cristã do PPE, e os nacional-populismos, racistas e xenófobos não são o mesmo que o conservadorismo-liberal. Mas, do outro lado, também se poderia dizer que Obama não é Bernie Sanders, que Blair não é Corbyn, que as ocupações climáticas de Al Gore não são as excitações populistas de Alejandra Ocasio-Cortez; ou que a social-democracia escandinava não é o socialismo radical chavista. E, porém, poucos o disseram, e a “amálgama” à esquerda seguiu tranquila.

Há quase quatro anos, quando A clareza que defendemos foi escrita, o Chega tinha 1,29% e um deputado, hoje tem uma intenção de voto, a fazer fé na última sondagem para o Expresso, de cerca de 21%. O país, entretanto, está mais estagnado, os serviços públicos mais deteriorados, as instituições mais desacreditadas: e a culpa de tudo isto não é do Passos nem é do Chega, é do Partido Socialista (e das suas parcerias com a extrema-esquerda).

A pergunta que agora se impõe é a da segunda parte do título deste artigo: a política é o terreno dos valores ou do poder? Estou convencido que é o terreno de ambos, e Francisco Sá Carneiro estaria de acordo comigo quando disse a célebre frase: “a política sem risco é uma chatice, mas sem ética é uma vergonha”. Já a resposta é a que está na primeira parte do título, recordando a velha rábula do filme de António Lopes Ribeiro, onde uns farsantes combinam um esquema para roubar as tias velhas: ou comem todos ou há moralidade.

E moralidade e valores foi coisa que a esquerda, cheia de proclamações de virtude, pôs na gaveta da ignomínia. Em 2015, os fanáticos justificaram a geringonça ideologicamente, os pragmáticos com a oportunidade de conquista do poder e os cínicos com a “geometria parlamentar” que supostamente repudiaria um governo de direita. Hoje, mantêm as suas posições.

Ora, alguém que ache que os 27% da AD, mais os 21% do Chega, mais os 5% da IL (a fazer fé na última sondagem publicada pelo Expresso) não são uma rejeição suficiente e inequívoca do PS e da extrema-esquerda, e admite que, no rescaldo das eleições, caso este cenário se confirme, a esquerda pode continuar a governar e a forjar o país mais pobre da Europa ocidental, ou é lírico ou é parvo.

Até Churchill, que apelidou a URSS de inferno e Estaline de diabo, fez um pacto com este último em nome do combate a um mal maior. Consideradas as devidas distâncias, sabemos bem qual é o mal maior da política portuguesa: chama-se Partido Socialista. E sabemos que não podemos ter um bar aberto à esquerda, onde convivem extremistas, radicais, populistas e incompetentes e pudor e pruridos à direita.

Como é que se ultrapassa este aparente dilema entre valores e poder? Estando seguros dos valores que intransigentemente defendemos (onde qualquer laivo de racismo, xenofobia e iliberalismo ficam à porta), não abdicando da ética, mas não deixando de tomar o poder, correndo riscos, quando o país assim o exige. Assim, diria Sá Carneiro. Assim, diria Pedro Passos Coelho.

As escolhas que cada um fizer no dia 11 de Março serão mais tarde cobradas pelos eleitores. Mas, para isso, são necessárias virtudes políticas como visão, liderança, coragem e capital moral. E isso é outra conversa.

Pedro Gomes Sanches escreve de acordo com a antiga ortografia

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Ou comem todos ou há moralidade: a política é o terreno do poder ou dos valores?

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05.02.2024

Qual é o “terreno comum” entre o Partido Socialista de Soares, da Fonte Luminosa, do 25 de Novembro, do combate ao comunismo, da integração de Portugal na CEE e o os partidos que ainda hoje suspiram pela ex-URSS, que titubeiam quando se lhes perguntam se a Coreia do Norte é uma ditadura, que amam os regimes cubano e venezuelano, que odeiam os Estados Unidos, que preferem os terroristas islâmicos a Israel, que acham que Ucrânia se pôs a jeito e que defendem a saída de Portugal da NATO e da União Europeia?

Qual é o “terreno comum” entre a esquerda social-democrata de inspiração nórdica e humanista e as “novas” esquerdas identitárias, wokistas e ferozes opositoras da Declaração Universal dos Direitos Humanos? Qual é o “terreno comum” entre a esquerda que admirou Mandela e Luther King e a esquerda que ainda hoje admira Fanon e Malcom X?

Em síntese, e em português, qual é o “terreno comum” entre o PS e o PCP e o Bloco de Esquerda?

Aqui há uns anos, alguns dos da designada “ala direita” do PS, e que acabaram agora pragmaticamente a apoiar Pedro Nuno Santos, respondiam a estas perguntas dizendo que não era nenhum. Por essa altura, todavia, António Costa por conveniência e Pedro Nuno Santos por convicção respondiam que era bastante.

E agora? Agora, sabemos qual é a resposta oficial do Partido Socialista. É a mesma de há muitos anos: porquanto a conquista e o exercício de poder esteja em causa, ao PS tudo serve.

Foi este pragmatismo, aliás, que permitiu ao PS governar o país 23 nos últimos 29 anos. E foi com esta afeição pragmática ao poder que levaram o país ao pântano (com Guterres), à bancarrota (com Sócrates) e à estagnação (com Costa). Foi com este pragmatismo que governaram em........

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