Já podemos despachar esta treta dos votos de Bom Ano Novo, as resoluções e o pensamento mágico, e voltar à realidade? Não vos indigneis: chamo-lhes treta na falta de melhor palavra que junte falácia e superficialidade.

Enfim, “reconheço, senhor[es], que estou irritado. Suportai-me, vos peço; é da fraqueza. Enturva-se-me o cérebro já velho”. Com estas palavras desculpa-se Próspero, na peça A Tempestade de Shakespeare, e eu também. Mas já volto ao Próspero.

Para já proponho um fast-forward para a última semana de Janeiro. É que as festividades não acabam no dia de Reis, mas apenas na última semana de Janeiro, já suficientemente distante do brilho das luzes natalícias e com a árvore de Natal desmontada e arrumada na arrecadação. A última semana de Janeiro deverá ser, porventura, a mais real das semanas do ano. Por essa altura, já a maior parte das resoluções de Ano Novo terão sido abandonadas: os cigarros voltaram a acender-se, o saco do ginásio já está a estorvar na entrada, a dieta já foi interrompida por aquela carenciazinha, o gajo da contabilidade voltou a ser um imbecil, a chefe voltou a ser uma sacana, ainda não se arranjou tempo para voltar ao lar para visitar a avó e a vizinha do 5⁰ esquerdo anda a trair o marido e é bem feito. Bem-vindos ao mundo real.

Não me interpretem mal: não tenho nada contra a festa, contra os votos nem sequer contra a superficialidade dos mesmos, e não tenho gosto especial em chafurdar no cinismo. Como dizia o outro, entre mim e a vida não há qualquer espécie de equívocos.

Mas, ainda que sem equívocos, sobre a vida há uma pergunta que sempre me inquietou e para a qual, em diferentes momentos, me inclino para uma das alternativas de resposta: a nossa vida é um filme contínuo, ininterrupto, fastidioso, revelador de toda a luz, sombra e lusco-fusco ou um álbum de polaroids, instantâneo, representativo dos grandes momentos?

O estóico que habita em mim inclina-se para a primeira opção e recomenda prudência, o epicurista para a segunda e aconselha festim. Sugiro que agarrem as duas, o pior que pode acontecer é a coisa não funcionar. Mas, como sabeis, em matéria de falhanços, as probabilidades jogam a vosso favor.

Vamos por partes: começo com um desagravo. Adorei ver-vos, senhoras, ontem à noite, com purpurinas, vestidos brilhantes, saltos mágicos e decotes. É verdade que prefiro álcool destilado, mas o champagne vai bem convosco. Quanto a vós, canastrões, essa moda de usar blazer sem camisa e uma coleira ao pescoço, faz-vos parecer uns labregos num filme sado-maso de baixa produção, mas eu quero é que sejam felizes.

E eis que é aqui, nos votos de felicidades, sobretudo quando projectados para o futuro, que reside o problema. Este ano, provavelmente, vão perder entes queridos, estragar relações, falhar projectos. Ou, se Deus quiser e o diabo deixar, o contrário disso: assistir a nascimentos, ao aparecimento de novos entes queridos, fundar ou consolidar relações, atingir o sucesso. Mas, quem sabe?

O ponto é que essa coisa do Ano Novo, Vida Nova é a maior falácia… do ano. Na verdade, nada muda. As resoluções de ano novo dissipam-se antes de acabar Janeiro, revelando-se vãs as expectativas, os votos e as mudanças proclamadas. É por isso que, antes da pândega, ou depois dela para não estragar a festa, continua a ser mais real, útil e marcante o balanço do ano que acaba do que os desejos para o novo ano.

O que aqui vos deixo, em síntese, é a exortação da falência do novo e da inexorabilidade do velho. Desculpem lá o anti-clímax, eu sei que gostam daquelas máximas do “sonho comanda a vida” e mais não sei o quê. A propósito disso, diz Próspero (prometi que cá voltaria) outra coisa que gostam de citar: “Somos feitos da matéria dos sonhos”. Mas não se iludam: a citação está incompleta, o homem disse coisas antes e coisas depois dessa frase.

Depois, disse que a “nossa vida [é] pequenina e cercada pelo sono”; não vejo grande glória, a menos que se chamem David, numa coisa pequenina e cercada. Antes, porém, deu o mote: “Como vos preveni, eram espíritos todos esses actores; dissiparam-se no ar, sim, no ar impalpável. E tal como o grosseiro substrato desta vista, as torres que se elevam para as nuvens, os palácios altivos, as igrejas majestosas, o próprio globo imenso, com tudo o que contém, hão de sumir-se, como se deu com essa visão tênue, sem deixarem vestígio.”

Só há uma salvação: o exame de consciência sobre o que fizemos. Lamento a maçada, deste velho conservador: mas só amamos o que conhecemos, e isso está no passado e no presente. Para o futuro, recomendo menos vacuidade e mais realismo.

Não se zanguem comigo: desejo-vos mesmo um Próspero (agora, com um novo significado) Ano Novo. Mas, para já, foquem-se no Ano Velho. Daqui a um ano terão oportunidade de apreciar adequadamente 2024.

Pedro Gomes Sanches escreve de acordo com a antiga ortografia

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Já podemos despachar esta treta dos votos de Bom Ano Novo?

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01.01.2024

Já podemos despachar esta treta dos votos de Bom Ano Novo, as resoluções e o pensamento mágico, e voltar à realidade? Não vos indigneis: chamo-lhes treta na falta de melhor palavra que junte falácia e superficialidade.

Enfim, “reconheço, senhor[es], que estou irritado. Suportai-me, vos peço; é da fraqueza. Enturva-se-me o cérebro já velho”. Com estas palavras desculpa-se Próspero, na peça A Tempestade de Shakespeare, e eu também. Mas já volto ao Próspero.

Para já proponho um fast-forward para a última semana de Janeiro. É que as festividades não acabam no dia de Reis, mas apenas na última semana de Janeiro, já suficientemente distante do brilho das luzes natalícias e com a árvore de Natal desmontada e arrumada na arrecadação. A última semana de Janeiro deverá ser, porventura, a mais real das semanas do ano. Por essa altura, já a maior parte das resoluções de Ano Novo terão sido abandonadas: os cigarros voltaram a acender-se, o saco do ginásio já está a estorvar na entrada, a dieta já foi interrompida por aquela carenciazinha, o gajo da contabilidade voltou a ser um imbecil, a chefe voltou a ser uma sacana, ainda não se arranjou tempo para voltar ao lar para visitar a avó e a vizinha do 5⁰........

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