See that trendy there she used to be a punk
Now she's off to the disco to listen to junk
Her boyfriend was a skinhead
He used to shout Oi! Oi!
Play that funky music that's what they say now

Come with me and I'll show you how…

Dig that groove baby, Toy Dolls

O Chega debate-se com três dilemas: um musical, onde se avalia o tom; um empresarial, onde se avalia o tamanho; e um político, onde se avalia o teor.

Fundado em 2019, elegeu nesse mesmo ano um deputado à Assembleia da República (com 1,29% dos votos): André Ventura, seu Presidente e aquele de quem se disse ser o próprio partido, o “partido de um homem só”. Nessa altura, com um discurso indubitavelmente radical, mas só invulgarmente radical para quem sempre foi complacente com o Bloco de Esquerda, o Chega tornou-se o punk da política portuguesa. Enormidades a incendiar o rancor, foi a moshada política: cercas sanitárias a etnias, castração química a pedófilos, pena de morte e prisão perpétua. Foi a fase startup punk.

3 anos depois, em 2022, o partido elegeu 12 deputados à mesma Assembleia (com 7,18% dos votos). Quando muitos vaticinaram a consumação do seu Princípio de Peter, afirmando que não cresceria mais, o Chega abandonou as enormidades maiores e focou-se no “combate à corrupção” e no discurso “anti-sistema”. Do punk ao punk-rock, juntaram aos rancorosos os revoltados. Foi a fase scaleup punk-rock.

Já em 2024, sem perder a batida, amenizaram as letras e, sem perder a atitude, cortaram as cristas. Resultado: conseguiram 50 deputados (com 18,07% dos votos), elegeram um vice-presidente da Assembleia da República, juntaram ao rancor e à revolta o descontentamento e, com mais de 1 milhão de votos, entraram na fase Unicórnio pop rock.

Eis o dilema musical: para não perder os primeiros fãs, mantêm a atitude quasi-selvática dos Sex Pistols no God Save the Queen ou, para conquistar novos, optam apenas pelo tom rebelde do American Idiot dos Green Day? Certos de que a inclemência para com o chefe de Estado se mantém, claro.

Eis o dilema empresarial: os Unicórnios crescem de startup até uma capitalização bolsista superior a mil milhões de dólares. Os desafios são enormes e difíceis: gerir as crises de crescimento, manter as fontes de financiamento, assegurar a sustentabilidade do projecto e, sobretudo, ser capaz de transformar a expectativa bolsista em valor económico. Nesta fase, muitos ficam pelo caminho.

Eis o dilema político: com um eleitorado tão expressivo, o Chega ganhou o direito (e o dever) à prova da responsabilidade. É fácil agregar eleitores rancorosos, revoltados e descontentes por oposição ao status quo. O dilema político do Chega, porém, é que o sucesso dessa agregação é putativamente a raiz do insucesso da fase seguinte: a chegada ao, e o exercício do, poder. Como deixar de ser do contra, para passar a ser a favor de alguma coisa? Não basta clamar Mudança, é necessário dizer para quê.

O Chega tem três dilemas, dizia: o tom em que se expressa, a forma como gere o seu crescimento e o teor da sua mensagem política. O Chega, no tom, tem que optar por continuar a gritar inanidades e afirmar ignomínias (como as teorias da conspiração do Tânger Corrêa e os anátemas irresponsáveis sobre a totalidade dos migrantes do Ventura) ou continuar desassombrado, mas querendo ser eficaz e responsável no tratamento de temas como a segurança e o combate à corrupção. O Chega, no seu crescimento, tem que optar por admitir e dar protagonismo a todos os inúteis ressabiados ou reforçar-se com quadros competentes e respeitados, como o Tiago Moreira de Sá, por exemplo. O Chega, no teor, tem que optar por persistir no “quanto pior, melhor”, de mãos dadas com o Partido Socialista na destruição do Governo da AD, ou ser a ala conservadora da direita, mais empenhada em construir soluções do que em destruir o sistema. Todas as vias estão ainda em aberto, mas haverá um momento em que as escolhas serão fatais.

O dia 9 de Junho, conhecidos os resultados das eleições europeias, será um desses momentos essenciais para que o Chega se posicione face aos dilemas. Um bom resultado face à AD poderá acicatar o partido contra o Governo, incentivando-o a chumbar o Orçamento para 2025 e a precipitar eleições. Se o PS também tiver um bom resultado, isso será quase certo. Se o resultado ficar aquém das expectativas, talvez o ímpeto destruidor se modere. Pelo menos temporariamente.

Outra escolha reveladora será a de saber onde se vão sentar os deputados do Chega no Parlamento Europeu: manter-se-á o partido filiado na ID ou optará pelo mais palatável ECR?

Repito: todas as vias estão ainda em aberto. Mas o caminho que separa o punk do pop rock ou, se preferirem em linguagem menos metafórica, o caminho que separa um partido de protesto de um partido de poder é a dinâmica aspiracional que consigam criar junto dos seus. Uma coisa é “tudo a partir” outra coisa é “construir uma alternativa e alimentar uma expectativa”.

Explico de outra forma. Melhor, os Toy Dolls explicam: olhem para aquela rapariga toda da moda, que costumava ser punk, e para o seu namorado que era skinhead, e agora já só querem ouvir música de dança, moderna e estilosa. Foi assim que os Toy Dolls, banda punk britânica fundada em 1979, descreveram na sua música Dig that groove baby em 1983 essa dinâmica aspiracional. A verdade é que podiam estar a falar dos eleitores do Chega, entre 2019 e 2024.

Pedro Gomes Sanches escreve de acordo com a antiga ortografia

QOSHE - Chega: de Start Up Punk a Unicórnio Pop Rock - Pedro Gomes Sanches
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Chega: de Start Up Punk a Unicórnio Pop Rock

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13.05.2024

See that trendy there she used to be a punk
Now she's off to the disco to listen to junk
Her boyfriend was a skinhead
He used to shout Oi! Oi!
Play that funky music that's what they say now

Come with me and I'll show you how…

Dig that groove baby, Toy Dolls

O Chega debate-se com três dilemas: um musical, onde se avalia o tom; um empresarial, onde se avalia o tamanho; e um político, onde se avalia o teor.

Fundado em 2019, elegeu nesse mesmo ano um deputado à Assembleia da República (com 1,29% dos votos): André Ventura, seu Presidente e aquele de quem se disse ser o próprio partido, o “partido de um homem só”. Nessa altura, com um discurso indubitavelmente radical, mas só invulgarmente radical para quem sempre foi complacente com o Bloco de Esquerda, o Chega tornou-se o punk da política portuguesa. Enormidades a incendiar o rancor, foi a moshada política: cercas sanitárias a etnias, castração química a pedófilos, pena de morte e prisão perpétua. Foi a fase startup punk.

3 anos depois, em 2022, o partido elegeu 12 deputados à mesma Assembleia (com 7,18% dos votos). Quando muitos vaticinaram a consumação do seu Princípio de Peter, afirmando que não cresceria mais, o Chega abandonou as enormidades maiores e focou-se no “combate à corrupção” e no discurso “anti-sistema”. Do punk ao punk-rock,........

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