Uma geração sem tempo - e sem imaginação |
Saí há dias da inauguração de uma exposição de pintura, “Être more oggi”, de Luís Silveirinha. Para além do reconhecimento que hoje tem como artista plástico, inteiramente merecido, para mim continua a ser um antigo colega de mestrado que se tornou um bom amigo, desde o tempo em que as nossas carreiras estavam ainda por construir.
Falámos do percurso, naturalmente. Mas, a certa altura, a conversa desviou-se. O Luís continua a dar aulas de Educação Visual, por gosto, a alunos do 5.º ao 9.º ano. Perguntei-lhe se sentia diferenças nos alunos de hoje, face a gerações anteriores.
A resposta não foi surpreendente. Mas ficou a ecoar. E, de certo modo, confirmou um padrão que começa a tornar-se difícil de ignorar.
As transformações são evidentes e têm vindo a acentuar-se. Começam, muitas vezes, no ambiente familiar. Pais que procuram ser próximos, disponíveis, presentes, mas que, por vezes, parecem abdicar da dimensão mais exigente da parentalidade: a definição de limites, a introdução de frustração, a preparação para a autonomia. Compensam ausências com tecnologia de última geração e tornam-se permissivos no seu uso, mesmo em contextos onde antes havia fronteiras claras.
No fundo, tratam-nos como se crescer pudesse ser adiado. Como se a infância devesse ser prolongada. Mas a questão não se esgota aqui.
A isto soma-se um contexto mais vasto, em que a tecnologia ocupa um lugar central, não apenas como instrumento, mas como ambiente permanente. Um ambiente que favorece o imediato, que elimina a espera, que reduz a necessidade de esforço continuado. E é aqui que a questão deixa de ser apenas comportamental.
O que está em causa é mais profundo: é a relação com o tempo e com o pensamento. No ensino artístico, onde não há atalhos, isso torna-se particularmente visível.
Por um lado, a dificuldade em lidar com o tempo. A aprendizagem exige duração, repetição, tentativa, erro. Mas quando tudo em redor sugere rapidez e recompensa instantânea, o tempo deixa de ser aliado e passa a ser resistência.
Por outro, a dificuldade de abstração. Criar implica imaginar o que ainda não existe, trabalhar sobre o invisível, sustentar uma ideia antes de ela ganhar forma. Mas essa capacidade, essencial não apenas na arte, mas em qualquer forma de conhecimento, parece hoje mais frágil.
Não se trata de uma crítica geracional, nem de um exercício nostálgico. Trata-se de reconhecer um padrão que começa a ser visível em diferentes contextos e países: uma dificuldade crescente em lidar com a demora, com o esforço prolongado e com o pensamento não imediato. E isso levanta uma questão que não é menor.
Se a relação com o tempo se altera, altera-se também a forma de aprender. E, em última instância, a forma de pensar.
No fundo, talvez o problema não seja a falta de conhecimento. Mas a perda das condições que permitem construí-lo. Porque aprender exige esforço, persistência, repetição. Exige tempo. E, sobretudo, exige a capacidade de resistir à tentação do imediato - essa forma discreta de preguiça que dispensa o trabalho mais exigente do pensamento.
E isso é mais difícil de recuperar. Porque há coisas que não se aprendem sem demora. E outras que simplesmente não existem sem imaginação.
Quanto à exposição, no espaço braçoperna44, em Lisboa, até 30 de abril, vale bem a pena visitar.