6 de Maio: o ano perdido de Friedrich Merz
Há datas que regressam à História não como repetição, mas como ironia. A 6 de maio de 1974, Willy Brandt demitia-se da chancelaria alemã, formalmente esmagado pelo caso Guillaume, mas politicamente vencido por uma combinação mais complexa de cansaço, intriga, depressão governativa e perda de autoridade. Não caiu apenas porque um espião da RDA entrara no coração do seu gabinete. Caiu porque a Alemanha percebeu, antes dele talvez, que a força moral de um chanceler não basta quando a máquina do poder deixa de obedecer ao seu ritmo.
‘Passados 51 anos, a 6 de Maio de 2025, Friedrich Merz tomou posse como chanceler. Também nesse dia houve um sinal. Pela primeira vez na história da República Federal, um candidato à chancelaria alemã falhou a eleição na primeira votação parlamentar e só foi eleito à segunda tentativa. A Alemanha, país que transformou a previsibilidade numa forma de poder, iniciava assim uma legislatura marcada pela dúvida, pela incapacidade de mobilizar os alemães e os europeus, pelas constantes gafes e por uma falta de rumo.
Um ano depois, a dúvida não desapareceu. Apenas ganhou mais corpo.
Henrique Burnay
A ausência alemã
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Merz chegou ao poder carregado de expectativas que eram, em boa medida, maiores do que ele próprio. Depois dos anos de Olaf Scholz, marcados por prudência excessiva, comunicação metálica e incapacidade de transformar a Zeitenwende numa verdadeira doutrina de Estado, esperava-se de Merz uma rutura. Não apenas uma alternância partidária, mas uma restituição de direção.
A Alemanha precisava de voltar a saber o que queria ser: potência industrial, líder europeu, garante da Ucrânia, mediadora transatlântica, arquiteta de uma nova segurança continental. Durante a campanha, Merz parecia reunir os ingredientes certos: experiência económica, instinto atlântico, dureza retórica, cultura institucional e uma velha ambição de resgatar a CDU do longo crepúsculo merkeliano.
A política, porém, raramente perdoa quando a biografia promete mais do que a governação entrega. O primeiro ano de Merz revelou uma contradição essencial. O chanceler........
