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Coimbra: mudar de equilíbrio

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Existe, na teoria dos jogos e na economia institucional, um conceito que descreve situações em que um sistema fica preso numa configuração subótima, não por falta de recursos, mas porque nenhum dos seus atores tem incentivo individual para mudar sozinho. Chama-se equilíbrio de baixo nível. É estável. É duradouro. E é, precisamente por isso, difícil de romper.

Coimbra tem vivido nesse equilíbrio.

Não por falta de talento, nem por falta de ciência. Mas porque os ingredientes necessários para um ciclo virtuoso de crescimento: conhecimento, capital, empresas, políticas públicas; nunca chegaram a funcionar como um sistema. Estiveram presentes. Coexistiram. Raramente se reforçaram mutuamente de forma intencional e continuada.

O desafio que se coloca à cidade não é, portanto, um desafio de recursos. É um desafio de coordenação. E, em última análise, um desafio político: ter a capacidade coletiva de escolher um equilíbrio diferente, assente numa estratégia de longo prazo, e de sustentar essa escolha ao longo do tempo.

A cidade do potencial não coordenado

Há cidades que enfrentam escassez de recursos. Outras enfrentam escassez de talento. E há cidades que enfrentam um problema mais subtil e frequentemente mais difícil de resolver: falta de coordenação económica. Coimbra pertence claramente a esta última categoria.

Com cerca de 140 mil habitantes no município e perto de 460 mil na sua área intermunicipal, Coimbra é uma das principais cidades da região centro e um dos mais antigos polos universitários da Europa. A Universidade de Coimbra, fundada em 1290, forma hoje dezenas de milhares de estudantes e integra um dos sistemas científicos mais relevantes do país, ao lado do hospital universitário e centros de investigação de referência.

Poucas cidades europeias de dimensão média concentram tanto capital científico, humano e institucional. No entanto, Coimbra nunca conseguiu transformar plenamente esse capital intelectual numa economia urbana dinâmica e especializada. O paradoxo é evidente: a cidade possui ciência, talento e qualidade de vida. Mas faltou-lhe, durante demasiado tempo, aquilo que os economistas designam como coordenação institucional.

A roda que já foi inventada

O contraste torna-se evidente quando observamos cidades europeias de média dimensão (100mil / 500mil habitantes) que tomaram decisões estratégicas claras e se procuraram especializar de forma inteligente com base nas suas especificidades e potencial local.

Ulm, no sul da Alemanha, com cerca de 120 mil habitantes, transformou-se num polo europeu de engenharia médica e tecnologias industriais avançadas, através de uma cooperação estreita entre universidade, institutos Fraunhofer e indústria tecnológica.

Toulouse, em França, com cerca de 430 mil habitantes, construiu ao longo de décadas um dos clusters aeroespaciais mais sofisticados do mundo, ancorado na Airbus e numa forte integração entre universidades, centros de engenharia e indústria.

Málaga, em Espanha, com cerca de 580 mil habitantes, reinventou-se como hub tecnológico europeu, atraindo centros de inovação de grandes multinacionais e posicionando-se como um dos polos digitais mais dinâmicos do sul da Europa.

Estas cidades têm histórias e pontos de partida muito diferentes. Mas partilham três características fundamentais: especialização estratégica clara, coordenação institucional forte, e uma narrativa económica capaz de criar um efeito de arrastamento, atraindo e fixando investimento e talento ao longo do tempo. Coimbra passou demasiado tempo sem essa clareza estratégica. E na economia local, a ausência de escolha ou a falta de especialização inteligente promove a inércia, não indica um caminho comum e banaliza o que poderia ser verdadeiramente diferente.

A questão central para Coimbra é, portanto, simultaneamente económica e política: como mudar de equilíbrio?

Quatro condições para um novo ciclo económico

Responder a esta pergunta exige escolhas. Quatro condições parecem essenciais.

1. Universidade e cidade: uma única economia

As cidades universitárias mais bem-sucedidas tratam a universidade como infraestrutura económica central – “skills as infrastructure” - não apenas como centro académico. O conhecimento produzido pela Universidade de Coimbra, pelos hospitais universitários e pelos centros de investigação deve ser entendido também como matéria-prima económica. Isso implica uma ligação permanente entre ciência, indústria e investimento: aquilo que muitos economistas descrevem como ecossistemas science-to-market.

2. Escolher clusters com massa crítica

Nenhuma cidade média cresce tentando competir em todos os setores. A especialização inteligente exige escolhas. No caso de Coimbra, quatro áreas reunem massa crítica suficiente para criar efeitos de aglomeração: saúde e biotecnologia; educação tecnológica e formação avançada; aeronáutica, espaço e defesa; tecnologias verdes, agroindústria e economia circular. Clusters bem definidos criam aquilo que a economia urbana descreve como economias de proximidade onde talento, empresas e investimento se reforçam mutuamente.

3. Um ecossistema contínuo: de startups a scale-ups

O verdadeiro impacto económico pode começar com a criação de startups, mas atinge um maior nível de impacto quando algumas dessas empresas crescem e permanecem no território e criam empregos altamente qualificados. Isso exige um ecossistema integrado, onde incubação, capital de risco, acesso a mercado e talento coexistem. Startups precisam de nascer em Coimbra. Mas scale-ups precisam de conseguir crescer a partir de Coimbra, e essa distinção é frequentemente subestimada.

4. Uma plataforma de coordenação económica

As cidades que conseguiram transformar conhecimento em crescimento económico criaram instituições capazes de coordenar o sistema económico local. Barcelona tem a Barcelona Activa, que há décadas estrutura o ecossistema empreendedor da cidade. Toronto desenvolveu o MaRS Discovery District, um dos maiores hubs de inovação urbana do mundo. Copenhaga criou a Copenhagen Capacity, uma agência profissionalizada de atração de investimento e talento. De forma semelhante, Coimbra terá a Go Coimbra.

Estas plataformas funcionam como arquiteturas de coordenação ligando universidades, empresas, investidores e políticas públicas numa estratégia coerente. Criar essa capacidade institucional é precisamente o que permite a uma cidade mudar de equilíbrio.

Construir um novo equilíbrio

O maior ativo de Coimbra nunca foi apenas a sua universidade, nunca foi apenas o seu ecossistema empresarial, nem apenas a riqueza da cidade e região. Foi sempre a combinação rara de todos os seus ativos: da ciência, talento, competencia, competitividade, cultura e qualidade de vida.O problema nunca foi falta de ativos. Foi falta de sistema.

Durante demasiado tempo, Coimbra foi a cidade do potencial não coordenado. O desafio da próxima década é simples de formular, ainda que exigente de executar: mudar de equilíbrio. Passar de instituições que coexistem para instituições que colaboram. De potencial disperso para estratégia comum.

Porque, no final, as cidades não prosperam apenas pelo que têm. Prosperam sobretudo pela forma como organizam e potenciam aquilo que têm.

Mudar de equilíbrio é, por definição, um ato coletivo. Nenhuma instituição o consegue sozinha. Nenhum líder o impõe por decreto. Acontece quando atores suficientemente relevantes: universidade, empresas, câmara, investidores, talentos convergem numa visão comum e começam a agir de forma coordenada, ainda que de forma imperfeita e faseada.

O equilíbrio virtuoso que Coimbra pode alcançar, um sistema económico ancorado em ciência, especializado em setores de alto valor, capaz de reter e atrair talento, não é uma utopia. É o resultado que outras cidades de dimensão e recursos comparáveis já demonstraram ser possível. A diferença entre o equilíbrio de baixo nível em que a cidade tem sobrevivido e o equilíbrio de alto nível que pode vir a alcançar não é uma diferença de recursos. É uma diferença de coordenação, de escolha e de vontade política sustentada.

Essa é a mudança que está em aberto e que precisa de ser trabalhada e conseguida por todos


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