O poder ficou sem governo

Há momentos em que a história não regressa. Cai-nos em cima.

Foi isso que aconteceu quando o Médio Oriente voltou a arder, o Brent regressou aos três dígitos e o estreito de Ormuz voltou ao centro do mapa. Em poucos dias, desfez-se a fantasia mais confortável do Ocidente: a de que já vivíamos num mundo leve, digital, quase imaterial, protegido da velha brutalidade da geografia. Mas mais de um quinto do petróleo mundial continua a passar por aquele estreito. Quando Ormuz treme, não treme apenas uma região. Treme a infraestrutura invisível da vida moderna.

Mas o essencial não é a guerra. A guerra é apenas o clarão.

O que ela ilumina é mais fundo: entrámos numa época em que a humanidade acumulou mais poder do que capacidade para o governar. Durante séculos, o grande problema da civilização foi a escassez. Faltava energia, produção, capital, tempo, margem. A política nasceu para administrar a falta. A economia cresceu para a reduzir. As ideologias combateram para decidir como distribuir o que faltava.

O século XXI inverteu a equação.

Pela primeira vez na história moderna, o risco central já não é apenas termos pouco. É termos........

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