Ormuz e o fim do acesso garantido

A próxima fase da crise de Ormuz poderá ser definida menos pelo encerramento do estreito do que pela natureza cada vez mais condicionada do acesso ao mesmo.


A diplomacia em torno de Ormuz importa não tanto como solução temporária, mas como sinal da forma como o comércio global poderá ser gerido nos próximos anos. Mesmo que venha a ser confirmado um acordo para prolongar o cessar-fogo e aliviar as restrições à navegação, os seus detalhes poderão ser alterados, contestados ou aplicados de forma gradual. Mas a tendência de fundo já é visível: a estabilidade está a tornar-se menos automática e cada vez mais negociada.


Os relatos mais recentes de um possível prolongamento do cessar-fogo por 60 dias, ainda dependente da aprovação final de Donald Trump e não confirmado por Teerão, reforçam precisamente este ponto. Mesmo quando a diplomacia avança, o acesso a Ormuz surge cada vez menos como uma condição garantida e cada vez mais como parte de uma negociação contínua.


Para os países do Golfo, a questão não é apenas se os petroleiros voltarão a circular normalmente. A verdadeira questão é se a região conseguirá preservar a sua reputação como plataforma fiável para energia, logística, investimento e comércio internacional.


Para economias que estão a investir fortemente em portos, aviação, finanças, turismo, tecnologia e serviços logísticos, a confiança marítima não é um tema secundário. É parte integrante do próprio modelo económico.


Pelo Estreito de Ormuz passa cerca de um quinto dos fluxos mundiais de petróleo e uma proporção semelhante do comércio global de gás natural liquefeito. Mas hoje a questão já não se limita à passagem física de mercadorias ou energia. O que está em causa é a confiança na continuidade dessa passagem.


O significado mais profundo da crise não reside, portanto, no risco imediato de um encerramento total, mas no modelo estratégico que começa a emergir em torno do Golfo. O acesso marítimo, os fluxos energéticos e a confiança comercial dependem cada vez menos de um equilíbrio estável e cada vez mais de entendimentos políticos que têm de ser renovados continuamente sob pressão.


Isto não representaria um regresso à estabilidade. Representaria o aparecimento de uma ordem comercial mais condicionada.


O risco não é necessariamente que a diplomacia falhe. O risco mais importante é que tenha sucesso apenas o suficiente para apresentar como estável um sistema que, na realidade, se está a tornar mais frágil.


A calma temporária não equivale a estabilidade estratégica. A calma pode ser negociada. A estabilidade tem de inspirar confiança.


A mudança mais importante não é, por isso, a passagem da guerra para a paz, mas a passagem da interrupção para a governação do acesso.


As........

© Expresso