Um jogo de xadrez no Templo do céu?

O perigo raramente chega da forma como as grandes potências antecipam. Antes de 1914, a Europa imaginava campanhas breves. Antes de 2008, Washington acreditava que a globalização tinha atenuado as rivalidades sistémicas. Hoje, o erro talvez seja outro: supor que a disputa entre os Estados Unidos e a China se resolverá através de um acontecimento suficientemente dramático para reorganizar, num só gesto, a ordem internacional. Uma invasão de Taiwan. Um bloqueio naval. Um incidente militar no Pacífico. O fascínio ocidental pelo momento decisivo persiste porque a cultura estratégica americana continua organizada em torno da ideia de rutura.

A China opera segundo outra cadência, menos interessada em confrontos frontais do que em deslocar, de forma progressiva e paciente, o tabuleiro onde as decisões são tomadas. Durante décadas, Pequim inscreveu essa ambição na linguagem do desenvolvimento económico. Precisava de estabilidade externa, acesso a mercados, investimento estrangeiro e tempo. A leitura ocidental dessa prudência como aceitação da ordem liderada pelos Estados Unidos ignorou um cálculo mais rigoroso. Adiar o confronto permitia acumular capacidade industrial, tecnológica e militar suficiente para o tornar menos assimétrico no futuro. O crescimento não era apenas convergência económica, era também a construção lenta de capacidade estratégica.

A crise financeira de 2008 alterou esse enquadramento. Em Pequim, não foi lida apenas como recessão severa, mas como exposição de fragilidades estruturais ocidentais. O colapso financeiro coincidiu com guerras prolongadas e desgaste político interno nos Estados Unidos. A leitura chinesa consolidou-se em torno de uma ideia simples: o sistema rival deixava de evoluir de forma linear e passava a revelar instabilidade interna com impacto externo.

A partir desse ponto, a política externa chinesa deixou de se orientar apenas por prudência e passou a refletir outra avaliação do tempo histórico. Sob Xi Jinping, essa inflexão tornou-se mais visível. A centralização política, o controlo ideológico, a vigilância tecnológica e o reforço do nacionalismo histórico não surgem como elementos........

© Expresso