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As perguntas certas e as lições erradas no Médio Oriente

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02.04.2026

A ideia de que a guerra entre o Irão e os Estados Unidos era inevitável pertence a uma categoria de construções históricas que adquirem a sua aparência de certeza precisamente quando já não deixam espaço para contestação. A linearidade que propõem não descreve o real. Reorganiza-o sobre um espaço feito de hesitações, desvios e decisões contraditórias. O que hoje surge como destino foi, durante muito tempo, apenas uma sequência de escolhas imperfeitas.

A relação entre os dois países não começa como antagonismo, mas como um espaço difuso de reconhecimento, marcado por distância geográfica e leituras incompletas. Antes de qualquer eixo estratégico, existiam projeções assimétricas. A Pérsia era entendida como uma extensão de uma continuidade imperial, mais do que como uma entidade política plenamente autónoma. Os Estados Unidos surgem numa região já ocupada por outras potências, onde o espaço estratégico estava estruturalmente condicionado. Entre ambos, não existia nem afinidade consolidada nem hostilidade formalizada, apenas perceções e muitas perguntas.

É mais tarde que a cronologia se transforma em narrativa coerente. Mesmo então, essa coerência é em larga medida retroativa. A presença americana no Irão começa indiretamente, através de comércio, educação e assistência técnica, sem um desenho estratégico unificado. O teor da relação só se torna legível quando começa a consolidar-se sob pressão tanto externa como interna. A Guerra Fria introduz uma lógica de estabilização que sustenta o Xá, Mohammad Reza Pahlavi, mas simultaneamente corrói a base social que ditará o seu fim.

O ponto de inflexão de 1953 não funciona como origem automática da hostilidade, mas como uma reorganização estrutural das perceções. O golpe contra Mossadegh, conduzido pela CIA e pelo MI6, fixa uma memória política de interferência que atravessa regimes e políticas externas, permeando a própria sociedade. Do lado iraniano, consolida-se a ideia de soberania vulnerável. Do lado americano, reforça-se a convicção oposta de que a ordem regional pode ser moldada por intervenções pontuais e eficazes. A partir daqui, a confiança passa a ser um problema constante. Em 1979, esta fragilidade acumula-se até à rutura. A revolução iraniana não deve ser lida como um corte abrupto, mas como condensação de tensões prévias. O episódio dos reféns cristaliza a perceção e fixa a leitura do conflito numa narrativa contínua: o bem contra o mal.

As décadas seguintes não eliminam esta ambiguidade. Deslocam-na. A guerra entre Irão e Iraque, os contactos indiretos, as convergências táticas e o recurso crescente a proxies introduzem uma forma de conflito que nunca é total, mas também nunca é desativado. A presença de Israel e da Arábia Saudita, da Rússia e da China, complexifica o quadro e multiplica as leituras possíveis.

Neste contexto, a interdependência económica global deixa de produzir estabilidade. Produz antes uma vulnerabilidade organizada. Cadeias de valor e fluxos energéticos tornam-se extensões da estratégia, e a estratégia converte-se em gestão contínua de risco. O padrão repete-se no eixo sino-americano, onde a interdependência não reduz a rivalidade, apenas a torna mais sensível a choques cruzados. A economia deixa de ser domínio neutro e consolida-se como mais uma infraestrutura de coerção – mesmo que Trump declare uma vitória no Golfo, é possível que o Irão continue a ter mais influência do que ele sobre a inflação americana.

Esta lógica encontra expressão numa estratégia dirigida à sensibilidade política interna dos EUA. O que, à primeira vista, parece uma construção teórica sobre a gestão de custos estratégicos revela-se, na prática, como uma engenharia de pressão, em que o teatro externo é usado para influenciar equilíbrios domésticos. Uma das primeiras lições que o regime iraniano aprendeu foi que o seu maior aliado contra o poder americano não era militar, mas político e económico: a opinião pública e os mercados. O objetivo não é derrotar a América no campo de batalha, mas tornar a guerra internamente insustentável, deslocando o conflito para o espaço doméstico. Neste quadro, a coerência estratégica não depende da superioridade militar, mas da capacidade de transformar custos externos em pressão eleitoral.

O Estreito de Ormuz não é apenas um corredor energético, mas um instrumento cuja eficácia depende da sua utilização parcial. A força reside tanto na capacidade de interrupção como na suspensão dessa mesma capacidade. A extensão desta lógica ao Mar Vermelho, através dos Houthis, introduz uma segunda linha de pressão e duplica a exposição do tráfego marítimo global. O sistema passa a reagir a combinações de risco, não apenas a choques isolados.

A evolução dos Houthis inscreve-se nesta transformação. O uso de mísseis antinavio, drones e minas marítimas revela uma capacidade assimétrica com impacto estratégico desproporcionado. Mais do que a sofisticação técnica, importa a integração funcional num ecossistema de projeção iraniano que não exige coordenação perfeita para produzir efeitos relevantes. Uma coerência mínima é suficiente para uma houthificação da guerra.

Guerra que, nestes contextos, deixa de ser apenas uma decisão política e começa a funcionar também como mecanismo de estabilização local. A degradação económica e a fragmentação institucional criam incentivos que não são apenas ideológicos, mas estruturais. Cada ator opera dentro de uma lógica defensiva, mas o resultado agregado produz aproximações sucessivas a limites que ninguém controla ou muitas vezes desconhece – uma verdadeira Caixa de Pandora.

Uma expansão do envolvimento americano em operações diretas sobre corredores marítimos críticos não seria apenas um gesto isolado. A conquista das ilhas de Kharg, Abu Musa ou Larak seria a continuação de uma escalada vertical já em curso. Cada ataque altera o conflito, transformando contenção em presença permanente e presença em dependência operacional.

O Irão mantém aqui uma posição paradoxal. A sua capacidade de perturbação é elevada, mas o seu valor estratégico depende da não utilização total. A ameaça só funciona enquanto permanece parcialmente suspensa. Esta tensão torna a escalada simultaneamente racional e instável.

Israel já opera sob constrangimentos próprios. A relação entre o apoio externo, a pressão económica e a opinião pública internacional estreita a sua margem de ação, ainda que não a elimine. A expansão do conflito enfrenta resistências crescentes, sobretudo perante a hipótese de um novo Vietname israelita no Líbano. Com eleições previstas para este ano e a possibilidade de Benjamin Netanyahu sair derrotado, a sua política de guerra permanente fixou, sem surpresa, o rio Litani como uma nova zona tampão e o Hezbollah como alegado alvo, apesar de ser evidente que está em curso uma punição coletiva da comunidade xiita.

A guerra no Médio Oriente, no seu conjunto, aproxima-se assim de uma instabilidade que se reforça a si própria. Cada decisão isolada até poderá parecer racional para muitos dos intervenientes. O resultado coletivo, porém, produz um movimento que nenhum dos atores antecipou ou conseguirá acautelar plenamente. O desfasamento entre intenção e consequência torna-se assim numa alavanca central do conflito, incluindo para os Estados do Golfo, que apesar das divergências internas e receios sobre o início do conflito, idealizam hoje um novo regime no Irão que não coloque em causa o seu modelo económico.

Mas o conflito entre o Irão e os Estados Unidos nunca foi inevitável. Resultou de uma acumulação de decisões, leituras imperfeitas e alargamentos sucessivos de um campo de conflito que se perdeu de vista. Aquilo que hoje parece destino foi, durante muito tempo, apenas uma série de contingências acumuladas. O desfecho dependerá em grande medida de saber se Teerão terá finalmente encontrado um presidente dos Estados Unidos mais determinado a destruir o regime do que o próprio regime está determinado a resistir-lhe.

A guerra não começa no instante em que se dispara o primeiro tiro. Começa no momento anterior em que deixa de ser possível conceber que esse tiro pudesse não ser disparado.


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