O hospital mais caro pode continuar a ser aquele que falha |
Escrevi sobre este tema, em 2023, para o Expresso. E volta a ser atual. Segundo notícias recentes, o novo Hospital de Lisboa Oriental terá o serviço de hemodiálise instalado num edifício sem isolamento de base. Em 2024, o Tribunal de Contas havia concedido o visto ao contrato de gestão do futuro Hospital de Lisboa Oriental, mas com a obrigação de a Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo (ARSLVT) incluir no projeto de execução da obra uma solução de isolamento de base contra sismos, como exigem os princípios da boa administração e da prossecução do interesse público.
Num cenário pós-sismo, a hemodiálise não é um serviço acessório – é vital. Muitas vítimas resgatadas de estruturas colapsadas correm o risco de desenvolver síndrome de esmagamento, que pode evoluir rapidamente para falência renal, exigindo diálise imediata para sobreviver.
É verdade que os edifícios do novo hospital estão dimensionados segundo o Eurocódigo 8. Mas convém lembrar: estes regulamentos visam evitar o colapso total e permitir a evacuação das pessoas em segurança. Não garantem que o hospital continue a funcionar, uma vez que os elementos não-estruturais, como equipamentos médicos, sistemas de AVAC, tetos falsos, tubagens, paredes divisórias, revestimentos, entre inúmeros componentes e equipamentos que possibilitam o funcionamento de um hospital, podem ficar danificados e tornar o hospital inoperacional.
Imaginemos que a unidade de diálise não sofre danos estruturais graves, mas falta água ou eletricidade ou os equipamentos tombam e danificam-se. O resultado é o mesmo, os doentes ficam sem tratamento. E há fatores adicionais que tornam este grupo de doentes ainda mais vulnerável:
Dificuldade de acesso a outros centros de diálise existentes, devido aos danos que os irão deixar inutilizáveis.Estradas bloqueadas e problemas no transporte;Escassez de equipamentos, sistemas de água tratada e medicamentos;Sobrecarga dos serviços de urgência;Falta de profissionais de saúde experientes;Problemas no estabelecimento de contacto entre doentes e pessoal de cuidados devido à falha nas comunicações telefónicas e eletrónicas.
No sismo de Marmara (Turquia), em 1999, 491 das 704 vítimas com complicações renais por síndrome de esmagamento necessitaram de hemodiálise.
Em 2009, em L'Aquila (Itália), o hospital e centro de diálise da cidade não colapsaram, mas ficaram seriamente danificados e inoperacionais. Foi necessário transferir 88 doentes em tratamento regular de diálise para as instalações disponíveis mais próximas para continuar o tratamento. Foram precisos três dias para montar um centro de diálise temporário em tendas.
Em 2023, após o sismo de Kahramanmaraş (Turquia), o hospital universitário de Çukurova, com 1200 camas e localizado 100 km das cidades afetadas pelo sismo, por se encontrar a funcionar, recebeu 1396 doentes entre 6 e 22 de fevereiro de 2023. Foram internadas 627 vítimas, e 82 receberam hemodiálise relacionada com esmagamento. Este hospital universitário possui um centro de hemodiálise com 18 máquinas de hemodiálise, 4 médicos, 12 enfermeiros e 7 funcionários.
Em 2023, participei na missão pós-sismo à Turquia, de onde enviávamos todos os dias notícias através do jornal Expresso (Diário do epicentro). Um dos principais objetivos desta missão foi compreender o comportamento dos edifícios hospitalares com e sem isolamento de base, e perceber como se conseguiu que o Estado turco exigisse, que fossem instalados sistemas de isolamento base em novos hospitais. Vimos a diferença. Vimos hospitais a funcionar e serviços críticos, como diálise, operacionais.
Não sou médica. Mas conheço esta realidade, através da participação em várias missões pós-sismo, da investigação e da leitura de artigos científicos (acessível a qualquer leitor) sobre a continuidade dos serviços essenciais em contexto de catástrofe, e que vão muito além da integridade estrutural dos edifícios.
Por isso, é difícil ignorar o que já está amplamente estudado e documentado.
Cada sismo é diferente e pode apresentar desafios que exigem esforços de resposta inesperados. É por isso que o planeamento tem de ser feito antes; conceber centros hospitalares com capacidade de expansão, com resistência sísmica não só na estrutura, mas também nos sistemas e equipamentos médicos, e recursos humanos suficientes.
Procurem ouvir todos os envolvidos na gestão de catástrofes, bem como os profissionais de saúde. Leiam a evidência científica. Informem-se antes de decidir. Porque, no fim, o hospital mais caro pode continuar a ser aquele que falha.
Artigos consultados
Bonomini M, Stuard S, Dal Canton A. "Dialysis practice and patient outcome in the aftermath of the earthquake at L'Aquila, Italy!, April 2009 (2011). Nephrol Dial Transplant. 26(8):2595-603. doi: 10.1093/ndt/gfq783.Kaya B, Balal M, Seyrek N, Mete B, Karayaylali I. (2024). "Hemodialysis Experience After Kahramanmaraş Earthquake". J Clin Med.;13(21):6610. doi: 10.3390/jcm13216610. PMID: 39518749; PMCID: PMC11547136.Sever M, Erek E, Vanholder R ... (2002). "Renal replacement therapies in the aftermath of the catastrophic Marmara earthquake". Kidney International, 62, 2264-2271.https://expresso.pt/opiniao/2023-02-09-O-hospital-mais-caro-e-aquele-que-falha-48c957e8https://expresso.pt/sociedade/2023-04-20-Turquia-dia-6-do-diario-do-epicentro-uma-questao-de-vontade-politica-e-nao-de-legalidade-1e028079https://expresso.pt/sociedade/2023-04-17-Turquia-dia-3-do-diario-do-epicentro-os-hospitais-vitimas-dos-sismos-9229a371https://observador.pt/especiais/hospital-de-lisboa-oriental-so-tera-sistema-sismico-de-base-num-dos-tres-edificios-especialistas-dizem-que-ha-risco-para-operacionalidade/