Que nos faz felizes? Na altura do Natal, os anúncios na televisão e o que fica bem dizer é que não é o dinheiro que traz a felicidade, mas a família e os amigos. No entanto, quando toca à ação, vale o dinheiro. As pessoas tomam as suas decisões práticas, tanto a curto como a longo prazo, com a motivação de acumular mais segurança e conforto material.

Quando digo que estamos à espera de um sexto filho, as inquietações são quase todas financeiras. Será que vamos conseguir pagar as coisas que supostamente trarão felicidade aos nossos filhos: brinquedos, experiências, colégios privados, atividades extracurriculares, roupa, festas temáticas de aniversário, viagens à Euro Disney? É obvio que não. Essa regra aplica-se até à Rainha de Inglaterra: um filho único terá mais dinheiro do que a repartir por mais irmãos.

E será que com tantos sacrifícios que uma família numerosa é obrigada a fazer, com poupança e trabalho árduo, não se será menos feliz? Não será a comodidade, o prazer, o “well-being” de se sentir sempre fisicamente e emocionalmente bem que nos faz felizes? Ser um barco a velejar num dia de sol e com brisa suave, sem que nenhuma nuvem ou contratempo o entristeça?

Basta fazer uma pesquisa no Google sobre o que mostram os estudos do que traz a felicidade e esbarra-se com o facto que não é o prazer nem o dinheiro. De facto, todos acham que seriam mais felizes se tivessem um pouco mais dinheiro, mesmo os mais ricos. Os estudos mostram que são as relações interpessoais, a qualidade e quantidade, que nos fazem felizes. São as pessoas na nossas vidas, a família e os amigos, que nos fazem verdadeiramente felizes.

Cá em casa somos todos uns sortudos. Temos menos dinheiro e comodidade a dividir por todos, mas temos mais relação. Com o nascimento de cada bebé, temos um ser humano completamente novo e misterioso, que ninguém sabe como será nem qual será o seu contributo no mundo. Temos mais uma relação de filho, irmão, amigo, colega, esposo, tio, primo, avô, vizinho, etc. Temos mais aniversários e dias especiais para celebrar. Temos mais abraços a dar e piadas para nos rimos.

Que o mundo está com superpopulação é um mito. Propagado por umas elites globais com motivos suspeitos e medidas climáticas duvidosas. Elon Musk, muito na ribalta nestes últimos meses, tem dedicado uma grande parte dos seus tweets a este tema. Disse no dia 7 de julho, “O colapso da taxa de natalidade é a maior ameaça que a civilização enfrenta, de longe.” Sonha com ocupar o planeta Marte, mas diz que nem há pessoas suficientes para o planeta Terra, quanto mais para Marte. Publica frequentemente este gráfico do Wall Street Journal, que mostra o declínio da taxa de natalidade abaixo do necessário para a substituição de gerações.

As culturas em quase todos os países, claramente incluindo Portugal e os Estados Unidos, têm mudado muito em relação a este tema nos últimos cinquenta a cem anos. A família e os amigos são menos valorizados, e não são uma prioridade. Um bebé é um peso, um gasto, dá muito trabalho, é um obstáculo à carreira, às viagens e ao ir frequentemente a restaurantes. A cultura torna-se cada vez menos “aldeia” e comunitária e cada vez mais individualista, cada um por si, só os autossuficientes e os que produzem é que valem. A solidão e as doenças mentais superabundam. Se se tem um ou dois filhos, por pressão social ou sem bem saber porquê, é para cerrar os dentes e esperar que passem esses anos chatos de infância ou então delegar todo esse cuidado.

O filme Encanto, lançado pela Disney em 2021, retrata uma vida familiar e comunitária tão comum há um século e tão rara hoje em dia. Centra-se numa família intergeracional, numa casa cheia de comida, música, magia, festas e muita, muita gente. A aldeia inteira aparece nessas festas, para celebrar os dons de cada membro individual da família. Conta com brigas, animosidades, dificuldades, choro e raiva, mas também com a superação em conjunto, o perdão, o diálogo, a descoberta do outro.

Vivemos um estilo de vida estéril em todos os sentidos. Anestesiados com medicamentos psiquiátricos e não só, com prazer a curto prazo e uma procura fatigante de acumulação de bens. Em contraste com as grandes mesas, com a família alargada, em dias de festa no passado, vemos o casal a almoçar no restaurante com o seu filhinho único, colado ao telemóvel, sem qualquer conversa nem calor humano entre eles. Ou então pessoas sozinhas a viajar.

Escolho de olhos abertos um estilo de vida diferente, antes tão comum nas culturas latinas como retrata Encanto. Com música, boa comida, barulho, confusão e, acima de tudo, muita, muita gente. Frida Kahlo viveu angustiadamente muitas perdas de bebés, mas dizia que compensava ao rodear-se de animais, como cães e até macacos. Criticava muito a cultura individualista e baseada na produtividade dos Estados Unidos. Pintou um quadro intitulado Autorretrato na Fronteira entre o México e os Estados Unidos, em que as raízes dos Estados Unidos são cabos e fios elétricos e as raízes do México são plantas e História.

Não é natural a família nuclear estar tão isolada e sozinha com dois pais e um filhinho, apesar de ser mais higiénica e segura. Uma casa como a de Encanto é mais natural, em que passam não só muitos filhos mas tios, primos, afilhados, amigos, vizinhos, com muita entreajuda. É esta casa que escolho: onde também tem mais choro, barulho, caos, estragos, acidentes, brigas e lágrimas. Fraldas, loiça e roupa suja. É uma casa aberta à chuva e ao sol. É simultaneamente uma casa mais real, mais vulnerável e mais aberta à aventura do outro e com os outros.

Cá em casa vamos ser oito. Temos menos dinheiro para chegar para todos, mas mais pessoas. É esse o recurso mais valioso. Temos mais contratempos e adversidade, mas mais crescimento. Temos mais risco, mas mais aventura. Como já escrevi, vou para o sexto filho ainda com mais gosto. Podem agradecer a contribuição de cidadãos, cultura e o pagamento da vossa segurança social mais tarde.

QOSHE - Cá em casa vamos ser oito - Julie Machado
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close
Aa Aa Aa
- A +

Cá em casa vamos ser oito

5 1 15
03.08.2022

Que nos faz felizes? Na altura do Natal, os anúncios na televisão e o que fica bem dizer é que não é o dinheiro que traz a felicidade, mas a família e os amigos. No entanto, quando toca à ação, vale o dinheiro. As pessoas tomam as suas decisões práticas, tanto a curto como a longo prazo, com a motivação de acumular mais segurança e conforto material.

Quando digo que estamos à espera de um sexto filho, as inquietações são quase todas financeiras. Será que vamos conseguir pagar as coisas que supostamente trarão felicidade aos nossos filhos: brinquedos, experiências, colégios privados, atividades extracurriculares, roupa, festas temáticas de aniversário, viagens à Euro Disney? É obvio que não. Essa regra aplica-se até à Rainha de Inglaterra: um filho único terá mais dinheiro do que a repartir por mais irmãos.

E será que com tantos sacrifícios que uma família numerosa é obrigada a fazer, com poupança e trabalho árduo, não se será menos feliz? Não será a comodidade, o prazer, o “well-being” de se sentir sempre fisicamente e emocionalmente bem que nos faz felizes? Ser um barco a velejar num dia de sol e com brisa suave, sem que nenhuma nuvem ou contratempo o entristeça?

Basta fazer uma pesquisa no Google sobre o que mostram os estudos do que traz a felicidade e esbarra-se com o facto que não é o prazer nem o dinheiro. De facto, todos acham que seriam mais felizes se tivessem um pouco mais dinheiro, mesmo os mais ricos. Os estudos mostram que são as relações interpessoais, a........

© Expresso


Get it on Google Play