Reparei primeiro numa pereira que vive perto de mim, depois noutras árvores da rua e em algumas avenidas: é verão, mas as árvores perdem as folhas, que caem, secas, como se tivesse chegado o outono. Qual a razão deste envelhecimento fora do tempo? Os cientistas - aprendi num jornal - chamam ao fenómeno “cavitação”. É uma espécie de outono precoce, cada vez mais frequente. As árvores estão em stress hídrico por causa da seca e do aquecimento global e as suas folhas morrem mais cedo para que elas possam guardar o resto da água de que dispõem. É só mais um sinal, desolador e triste, dos efeitos dos eventos climáticos extremos, que matam também pessoas e não só nos incêndios. De acordo com a Agência Europeia do Ambiente, Portugal está entre os países europeus com mais mortes prematuras e mais perdas económicas por causa das alterações climáticas e a tendência é piorar.

Cotrim de Figueiredo, líder da Iniciativa Liberal, foi ao Rio Lima no fim de semana, tomando o “desespero da seca” como pretexto para criticar a ausência de uma “resposta estrutural contra as alterações climáticas”. A declaração é surpreendente: o seu partido foi o único que votou contra a Lei de Bases do Clima, sem sequer uma declaração de voto para que se esclarecessem as razões liberais e sem qualquer proposta alternativa. Durante a campanha eleitoral, contudo, Cotrim de Figueredo disse que não gostava da expressão “emergência climática”, por ser “alarmista” e contribuir para “uma campanha despudorada contra a economia de mercado”. Para negar a emergência serviu-se da suspeição: “a emergência climática faz parte de uma agenda”, declarou. O tema incomoda a IL. A crise climática, que se agrava de dia para dia, mostra de facto o falhanço das receitas liberais. Nem a correção das “falhas de mercado” chega, nem a tecnologia salva. São mesmo nevessárias escolhas políticas fortes, que mexam onde os liberais não ousam tocar: os monopólios energéticos, o poder da indústria fóssil, as novas explorações de petróleo e gás, a razão capitalista que destrói ecossistemas e comunidades. À lógica predadora do mercado é preciso opor o planeamento económico e a rejeição do crescimento infinito sobre recursos finitos. Mobilizar recursos públicos para fazer a transição climática e garantir trabalho digno.

Quem não tem razões para se queixar, já sabemos, é a Galp: aumentou 153% os seus lucros no primeiro semestre deste ano. São mais 422 milhões de euros, retirados dos bolsos de empresas, famílias e consumidores individuais que se vêem a braços para fazer face à crise, à inflação e ao preço dos combustíveis. Nem assim o governo português avança com uma medida que vários países europeus já tomaram: taxar os lucros extraordinários das petrolíferas e ter uma política determinada para a fixação dos preços e a redução das margens de lucro.

O regime de Putin - cuja invasão da Ucrânia, além da agressão do país, veio agravar a crise alimentar e energética e dar novos pretextos para o recuo de vários governos nas alterações climáticas - continua os bombardeamentos, mesmo depois dos acordos para o escoamento dos cereais. Mas nem só isso o ocupa. A diplomacia russa tem ainda tempo para escrever comunicados intimidatórios contra artistas portugueses. Depois de Pedro Abrunhosa ter ecoado, num concerto em Águeda, um sonoro “Putin, Go Fuck yourself”, a embaixada da federação russa decretou “indignas do homem de cultura” tais afirmações, ameaçando que “as respetivas conclusões serão tiradas”. O tom do comunicado é obviamente indigno. O Ministério dos Negócios Estrangeiros fez uma nota de repúdio à embaixada russa, e muito bem. Somos um país soberano e não devemos tolerar estes recados. Vários artistas fizeram também questão de lembrar que, ao contrário da oligarquia russa, por cá não falta quem estime a liberdade e não aceite ameaças. A solidariedade é merecida e impõe-se. Que não nos calemos, pois, relativamente a nenhum autoritarismo. Nem ao despotismo desse modo de produzir e de mandar que está a destruir o planeta.

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Precoce outono num triste verão quente

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27.07.2022

Reparei primeiro numa pereira que vive perto de mim, depois noutras árvores da rua e em algumas avenidas: é verão, mas as árvores perdem as folhas, que caem, secas, como se tivesse chegado o outono. Qual a razão deste envelhecimento fora do tempo? Os cientistas - aprendi num jornal - chamam ao fenómeno “cavitação”. É uma espécie de outono precoce, cada vez mais frequente. As árvores estão em stress hídrico por causa da seca e do aquecimento global e as suas folhas morrem mais cedo para que elas possam guardar o resto da água de que dispõem. É só mais um sinal, desolador e triste, dos efeitos dos eventos climáticos extremos, que matam também pessoas e não só nos incêndios. De acordo com a Agência Europeia do Ambiente, Portugal está entre os países europeus com mais mortes prematuras e mais perdas económicas por causa das alterações climáticas e a tendência é piorar.

Cotrim de Figueiredo, líder da Iniciativa Liberal, foi ao Rio Lima no fim de semana, tomando o “desespero da seca” como pretexto........

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