Não é preciso ser-se especialista em comportamento para saber que quando se decide não fazer escolhas se está já a escolher. A passividade do governo perante alguns dos principais problemas que vivemos é pois uma escolha, que deixa as desigualdades instalarem-se.

Neste ano de 2022, têm anunciado os jornais, a remuneração dos acionistas das grandes empresas, em particular na energia, petróleo e banca, vai subir como nunca. Estima-se que mais de 1,5 biliões de euros sejam distribuídos em dividendos. Ao mesmo tempo, os salários não são atualizados porque, defendem os liberais e o Governo, isso aumentaria a inflação. Os preços sobem sem que se fixem margens, sem que se tabelem administrativamente preços de bens essenciais, sem que se avance sequer na taxa sobre os lucros extraordinários, que outros países já implementaram. Portugal é, segundo a OCDE, um dos países onde quem trabalha mais perdeu salário para a inflação. Por cá, tudo pode subir, menos o salário, para “não provocar inflação”, como tem argumentado António Costa.

Só que ao contrário do que o Governo disse durante meses, a inflação não é transitória, mesmo que venha a abrandar. É anterior à guerra, embora tenha disparado com ela, e resulta, em grande medida, da especulação em curso com matérias primas e do aproveitamento dos grandes grupos da energia e da distribuição alimentar, que terão lucros como nunca tiveram. Ao mesmo tempo, os trabalhadores perderão, este ano, o equivalente a um mês de salário no seu poder real de compra.

O conformismo com as “leis do mercado” não é outra coisa que não uma opção ideológica em favor da estrutura de privilégios que existe. Foi para isso que o PS quis uma maioria absoluta? Já se sabe que o capitalismo tem a sua lógica voraz. Mas é precisamente para contrariá-la que existem políticas públicas, planeamento democrático, subordinação do poder económico ao poder político, valores elementares da esquerda. Sim, é possível impor um teto aos custos da eletricidade, do gás e dos combustíveis. É possível descer o IVA de todos estes bens essenciais, mas também cortar nas rendas das energéticas e ser o Estado a fixar preços através da lei democrática, em vez de ser o mercado a fazê-lo através da lei da especulação. É preciso, e é possível, controlar os preços da alimentação. É possível estancar o aumento das rendas, que pode ser este ano o maior de sempre. Na realidade, a lei já fixa um teto para esse aumento, mas é preciso que, no atual contexto, elas não possam subir em linha com a inflação, quando os salários se mantiveram congelados. E é preciso evitar mais uma catástrofe neste campo, limitando aumentos de renda mas também impedindo a penhora da casa de habitação própria e garantindo finalmente que quem entrega a casa ao banco não continua a pagá-la, como hoje ainda acontece, mesmo que absurdo e imoral.

As respostas dadas até agora pelo Governo e as avançadas pelo PSD, que não se distinguem no essencial - um apoio de 60 euros para as famílias mais pobres, pago de uma só vez, como fez o Governo, ou os vales alimentares de 40 euros, como sugeriu o PSD no seu “programa de emergência social” - não atacam a inflação, deixam intocados os lucros ilegítimos dos grandes grupos económicos e não recuperam os salários, antes permitindo que neles se inscreva duradouramente o efeito do corte no seu valor real. São medidas transitórias e de duração imprevisível, que não terão efeito estrutural no combate à desigualdade que já se agravou neste período, que não beliscam a elite económica que está a ganhar com este assalto. Não garantem nem justiça nem segurança sobre o futuro. Mas há respostas alternativas - e na verdade, são essas as que são capazes de responder à maioria do país.



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Deixar correr é uma escolha - mas demais é demais

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30.08.2022

Não é preciso ser-se especialista em comportamento para saber que quando se decide não fazer escolhas se está já a escolher. A passividade do governo perante alguns dos principais problemas que vivemos é pois uma escolha, que deixa as desigualdades instalarem-se.

Neste ano de 2022, têm anunciado os jornais, a remuneração dos acionistas das grandes empresas, em particular na energia, petróleo e banca, vai subir como nunca. Estima-se que mais de 1,5 biliões de euros sejam distribuídos em dividendos. Ao mesmo tempo, os salários não são atualizados porque, defendem os liberais e o Governo, isso aumentaria a inflação. Os preços sobem sem que se fixem margens, sem que se tabelem administrativamente preços de bens essenciais, sem que se avance sequer na taxa sobre os lucros extraordinários, que outros países já implementaram. Portugal é, segundo a OCDE, um dos países onde quem trabalha mais perdeu salário para a inflação. Por cá, tudo........

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