Ocupar a esfera mediática é algo que, diria, está no sangue dos governos socialistas. Mas que serve, igualmente, um propósito: o de tentar condicionar a perceção pública acerca dos concretos contornos da sua atuação. E, há que reconhecê-lo, fazem-no com notável competência, seja diretamente, seja por procuração, recorrendo a um conjunto de aliados, individuais ou coletivos, que estão sempre disponíveis para lhes cantar loas.

O que se passa com o Executivo liderado por António Costa não foge, evidentemente, a essa regra. Nas palavras e nas declarações, dir-se-ia um Governo muito ativo e focado. Mas, se olharmos para além de todo o ruído gerado, sobra, no essencial, o vazio.

Vazio, antes do mais, na saúde.

Os encerramentos das urgências continuam, apesar da nomeação de uma comissão que, milagrosamente, tudo iria resolver.

Médicos e enfermeiros pedem, às centenas, escusa de responsabilidade.

Os diretores do serviço de urgência do Hospital São Francisco Xavier ameaçam demitir-se em bloco, dizendo que não estarão garantidas a capacidade de assistência e cuidados às pessoas que recorrem ao serviço de urgências, nem a segurança destas e dos profissionais que as assistem.

E, aparentemente por falta de resposta atempada do INEM, vidas perdem-se ou o socorro é prestado com inaceitável atraso.

Enquanto tudo isto sucede, o Governo, com a inefável ministra Marta Temido à cabeça, esconde-se atrás da retórica política e invoca, triunfalmente, um estatuto do SNS que tudo resolverá. Mas que, como o próprio Marcelo Rebelo de Sousa sublinhou, aquando da promulgação da lei, deixa por regulamentar, por mais seis meses (pelo menos, diria eu), quase tudo o que é essencial.

Quem se diz de esquerda e tanto proclama as suas preocupações sociais devia saber que as pessoas não são números. E que cada dia que as urgências encerram ou que os problemas estruturas não são resolvidos não constituem apenas dados estatísticos. São uma realidade concreta, que gera dramas concretos para pessoas concretas.

Vazio, também, na economia.

O Governo ufana-se do PRR e do estado da sua execução. Mas a verdade é que, no que toca às empresas, cujo contributo para a criação de riqueza e de emprego é insubstituível, os pagamentos realizados estão abaixo de 2% do total. E sem esquecer que o montante global que lhes está afeto já é, em si mesmo, muito inferior ao que seria adequado.

Por seu lado, o programa de apoio à capitalização das PME – que, importa não esquecer, constituem a base essencial do sector empresarial nacional – ainda não atribuiu um cêntimo que fosse, seis meses decorridos do fim do período de candidaturas.

E que dizer do Banco Português de Fomento, que era suposto desempenhar um papel essencial em tudo isto, mas que continua em parte incerta?

Mas, se áreas há em que se pretende mascarar o vazio com a ocupação do espaço mediático a que aludi no início deste texto, outras há – e não são poucas – em que o vazio é apenas isso: vazio. Isto é, espaço que não contém coisa alguma. E que, naturalmente, é mais difícil de disfarçar.

Na sua orgânica, o executivo integra um Ministério da Justiça, um Ministério da Agricultura e Alimentação e um Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior. Todos envolvendo políticas de primeira linha para a resolução dos graves e delicados problemas com que o País se confronta.

No primeiro caso, pelo que representa para a defesa dos direitos dos cidadãos, mas também para o crescimento da atividade económica e para o aumento da atratividade em termos de investimento estrangeiro.

No segundo caso, por força das questões, hoje mais presentes do que nunca, relacionadas com o incremento da produção nacional e a diminuição da dependência de importações de produtos essenciais.

No terceiro caso, pelos desafios gerados por uma economia cada vez mais dependente da invenção e da inovação e pela ingente necessidade de apostar na qualificação das gerações mais novas.

Pergunto: alguém sabe o que andam a fazer esses ministérios? Alguém conhece uma ideia acerca do que aí se pretende levar a cabo? Alguém conhece um pensamento minimamente densificado nesses sectores? Escuso-me a dar uma resposta, tão evidente ela é.

Bem pode, pois, António Costa contratar diretores de comunicação para o Governo, como recentemente fez. Porque se isso poderá, é certo, ajudar a diminuir a sensação de vazio, o vazio em si mesmo só poderia ser preenchido se houvesse a noção de para onde se quer ir e de como lá chegar. Precisamente o que está em falta…

QOSHE - O vazio - José Matos Correia
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O vazio

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10.08.2022

Ocupar a esfera mediática é algo que, diria, está no sangue dos governos socialistas. Mas que serve, igualmente, um propósito: o de tentar condicionar a perceção pública acerca dos concretos contornos da sua atuação. E, há que reconhecê-lo, fazem-no com notável competência, seja diretamente, seja por procuração, recorrendo a um conjunto de aliados, individuais ou coletivos, que estão sempre disponíveis para lhes cantar loas.

O que se passa com o Executivo liderado por António Costa não foge, evidentemente, a essa regra. Nas palavras e nas declarações, dir-se-ia um Governo muito ativo e focado. Mas, se olharmos para além de todo o ruído gerado, sobra, no essencial, o vazio.

Vazio, antes do mais, na saúde.

Os encerramentos das urgências continuam, apesar da nomeação de uma comissão que, milagrosamente, tudo iria resolver.

Médicos e enfermeiros pedem, às centenas, escusa de responsabilidade.

Os diretores do serviço de urgência do Hospital São Francisco Xavier ameaçam demitir-se em bloco, dizendo que não estarão garantidas a capacidade de assistência e cuidados às pessoas que recorrem ao serviço de urgências,........

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