A ascensão dos extremismos nunca é uma boa notícia. Mas, quando essa tendência se consolida num país como a França, os motivos de preocupação adensam-se. Porque a França não é um país qualquer. É uma das grandes potências mundiais. Um membro central da União Europeia. E a ela devemos, entre muitas outras coisas, o nascimento do constitucionalismo europeu moderno, com todo o rol de princípios e práticas que, por natureza, lhe vão associados.

Nessa medida, é compreensível que os resultados registados nas eleições legislativas do passado domingo tenham gerado incerteza e inquietação em todos aqueles que se reveem nos valores da liberdade, da tolerância e do respeito pela diferença. E que elegem a via da moderação como regra geral da acção política.

Durante muito tempo, foi fazendo o seu caminho a ideia de que os sistemas políticos (e, nestes, os sistemas partidários) tenderiam para uma espécie de consolidação imobilista. Nas últimas décadas, porém, tornou-se cada vez mais evidente que assim não é. E os exemplos disso são múltiplos.

Na Itália, a I República desmoronou-se com estrépito, arrastando com ela os partidos tradicionais – democratas-cristão, comunistas e socialistas – e dando lugar a forças extremistas como a Liga do Norte ou ligadas a personalidades peculiares, como é o caso do Movimento 5 Estrelas.

Na Alemanha, o prolongado domínio dos democratas-cristão (e sociais-cristãos) e dos social-democratas foi substituído por um cenário claramente multipartidário, bem patente na circunstância de a governação ser hoje assumida por uma coligação tripartida e no ressurgimento da extrema-direita.

Em Espanha, Partido Popular e PSOE têm vindo a perder posições em benefício do Podemos e do Vox. E chegou-se ao ponto de o actual Executivo ser parlamentarmente sustentado por forças independentistas bascas e catalãs.

E até em Portugal, embora de forma porventura não tão pronunciada, assistimos, num primeiro momento, à progressão do Bloco de Esquerda e, mais recentemente, do Chega e, inclusive, ao desaparecimento da Assembleia da República de um dos partidos fundadores do nosso regime político.

Esse estado de coisas atingiu agora, com estrépito, a França. Embora, há que reconhecê-lo, o desastre estivesse, desde há algum tempo, anunciado.

A V República assentou longamente numa lógica de bipolarização, mais ideológica até do que meramente partidária, uma vez que, à esquerda e à direita, existindo, embora, partidos dominantes, situavam-se diversas forças políticas relevantes. Mas, sobretudo desde 2012, essa estabilidade começou a desmoronar-se.

A desastrada presidência de François Hollande praticamente destruiu o Partido Socialista, que passou dos 40% de votos em 2012 para cerca de 6% em 2017. E, desde então, nunca mais recuperou. Por outro lado, os erros de Nicolas Sarkozy (cuja tentativa de regresso em 2016 significativamente fracassou) deixaram marcas profundas, bem patentes na circunstância de, tanto em 2017 quanto em 2022, os candidatos herdeiros do gaullismo nem sequer terem conseguido passar á segunda volta das presidenciais.

Foi neste contexto que, numa pretensa lógica de refundação do sistema, surgiu Emmanuel Macron. Antigo ministro da economia do governo socialista, Macron foi eleito em 2017, muito à conta da sua promessa de “desbloquear a França”. E, nesse mesmo ano, o partido por si criado obteve, em conjunto com os seus aliados, maioria absoluta na Assembleia Nacional.

Cinco anos passados, a esperança então gerada dissipou-se por completo. Os constrangimentos mantêm-se (quando não se agravaram). E, o que é pior, adensou-se a desconfiança face à política e aos políticos “tradicionais”.

Em contraponto, os radicalismos reforçaram-se. O partido de Marine Le Pen, optando por uma postura tacticamente mais “soft”, obteve uns (até há pouco tempo) inimagináveis 89 deputados nas legislativas, aumentando em 81 lugares a sua representação parlamentar. E a coligação liderada por Jean-Luc Mélenchon (na qual, inacreditavelmente, os socialistas se integraram, subordinando-se a uma agenda assumidamente antieuropeísta e antiamericana de extrema-esquerda) chegou aos 149 mandatos, um incremento de 76 face ao resultado obtido há cinco anos atrás. E tudo isto, sublinhe-se, no quadro de um sistema eleitoral maioritário a duas voltas que, supostamente, favorece os maiores partidos.

Se, em política, há vitórias que são derrotas, o que se passou agora com Macron é disso prova bem palpável. Porque em causa não está, apenas, a perda da maioria absoluta que detinha. É que não se vislumbra em que termos, no futuro próximo, poderá ser assegurada estabilidade e governabilidade, até porque, precipitadamente, a direita republicana já veio proclamar que se situará na oposição.

O problema da França é, porém, muito mais vasto. Porque perderam a confiança naqueles que os têm governado, muitos eleitores viram-se, cada vez mais, para os

vendedores de banha da cobra da política. Que lhes acenam com “os amanhãs que cantam”. Que lhes asseguram que a felicidade está ao virar da esquina. Que lhes asseveram que, com eles no poder, tudo se resolverá num ápice.

Mas não é assim. Como, de resto, os próprios fazedores de promessas bem sabem. Porque o mundo é hoje uma realidade muito complexa. E não são as utopias ou as facilidades que, por artes mágicas, vão fazer os problemas desaparecer. São as reformas, as decisões difíceis, a coragem de fazer, o não adiar o inadiável.

E, como a realidade dos factos evidencia, o que digo a respeito de França é aplicável a muitos outros países. Incluindo, infelizmente, a Portugal.

José Matos Correia escreve de acordo com a antiga ortografia.

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O problema francês

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22.06.2022

A ascensão dos extremismos nunca é uma boa notícia. Mas, quando essa tendência se consolida num país como a França, os motivos de preocupação adensam-se. Porque a França não é um país qualquer. É uma das grandes potências mundiais. Um membro central da União Europeia. E a ela devemos, entre muitas outras coisas, o nascimento do constitucionalismo europeu moderno, com todo o rol de princípios e práticas que, por natureza, lhe vão associados.

Nessa medida, é compreensível que os resultados registados nas eleições legislativas do passado domingo tenham gerado incerteza e inquietação em todos aqueles que se reveem nos valores da liberdade, da tolerância e do respeito pela diferença. E que elegem a via da moderação como regra geral da acção política.

Durante muito tempo, foi fazendo o seu caminho a ideia de que os sistemas políticos (e, nestes, os sistemas partidários) tenderiam para uma espécie de consolidação imobilista. Nas últimas décadas, porém, tornou-se cada vez mais evidente que assim não é. E os exemplos disso são múltiplos.

Na Itália, a I República desmoronou-se com estrépito, arrastando com ela os partidos tradicionais – democratas-cristão, comunistas e socialistas – e dando lugar a forças extremistas como a Liga do Norte ou ligadas a personalidades peculiares, como é o caso do Movimento 5 Estrelas.

Na Alemanha, o prolongado domínio dos democratas-cristão (e........

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