Determinam as regras do Partido Conservador do Reino Unido que uma moção de censura ao seu líder exige o apoio de 15% dos membros do Comité 1922 (designação do órgão que reúne os backbenchers, isto é, os Deputados que não exercem funções governamentais ou de direcção política). E, como se sabe, esse requisito foi atingida na passada segunda-feira, levando a que, no próprio dia, a votação de tal moção tivesse lugar.

A causa imediata da iniciativa foi a publicação do relatório Gray, da responsabilidade de uma alta funcionária pública, no qual, sem margem para dúvidas, se evidencia que no n.º 10 de Downing Street (a sede do Governo e, ao mesmo tempo, a residência oficial do Primeiro-Ministro) se tinham realizado, no decurso da pandemia, múltiplos eventos (para não lhes chamar festas), em violação das regras restritivas impostas pelo próprio Executivo. E que Boris Johnson sabia da sua ocorrência, tendo participado, inclusive, nalguns deles.

Desde que, há alguns meses atrás, as primeiras suspeitas sobre esses comportamentos caíram na esfera pública, o Primeiro-Ministro teve uma atitude absolutamente errática. Começou por negar qualquer conhecimento da existência dos eventos; depois, afirmou que, caso tivessem acontecido, seguramente teriam respeitado as regras da pandemia; por fim, confessou a sua culpa e pediu “humildemente” perdão.

Muitas dessas justificações ocorreram em Westminster, na sessão de perguntas ao chefe do Governo (que ocorre todas as semanas…). E, como na mais antiga democracia do mundo a questão de saber se o Primeiro-Ministro mentiu aos Deputados é tratada como um assunto muito sério, foi criada uma comissão parlamentar para apurar a verdade.

Em bom rigor, porém, esta questão foi, apenas, a gota de água que encheu o copo. Porque a actuação de Boris Johnson tem sido, para ser simpático, medíocre (excepção feita, na minha opinião, ao seu comportamento no que toca à guerra na Ucrânia, em que tem patenteado uma atitude liderante e corajosa).

Os brexiters (neles se incluindo o próprio Boris Johnson) tinham prometido que, libertado das amarras de Bruxelas, o Reino Unido retornaria á sua antiga glória de grande potência mundial. E que o crescimento económico, limitado que estava pela burocracia das regras europeias, seria relançado para níveis há muito não vistos.

Ora, não foi preciso esperar muito para verificar que, como tantos atempadamente tinham avisado, o efeito da saída da União Europeia foi exactamente o inverso. E os números não mentem.

O país regista o maior nível de inflação dos últimos trinta anos. Os recuos em matéria de comércio internacional e de investimento acentuam-se desde aquela altura. O Banco de Inglaterra anuncia a forte probabilidade de uma recessão já para este ano. O risco de estagflação é, cada vez mais, real. Respostas á altura desses desafios? Nada…

E, como se tudo isso não fosse já suficientemente grave, fazem-se anúncios que se julgariam impossíveis no lugar onde se inventou a rule of law. Refiro-me, nomeadamente, ao anúncio da possibilidade de aprovação de leis internas que se sobreponham ao Protocolo sobre a Irlanda do Norte, celebrado com a União Europeia no âmbito do Brexit ou a conclusão de um acordo com o regime autoritário de Kigali para enviar para o Ruanda os imigrantes ilegais que atravessem o Canal da Mancha, que aí deverão aguardar pelo processamento dos seus pedidos de acolhimento.

As consequências de tudo isso estão à vista: o Partido Conservador perdeu as eleições locais do mês passado, está cerca de oito pontos percentuais atrás dos trabalhistas nas sondagens para as legislativas, os nacionalistas do Sinn Fein ganharam, pela primeira vez, o sufrágio para a Assembleia Parlamentar da Irlanda do Norte.

Na votação da moção de censura, Boris Johnson, formalmente, teve êxito, uma vez que registou 211 votos (58,8%) contra 148 (41,2%). Mas há vitórias que mais se assemelham a derrotas, como, de resto, antecessores seus no cargo imediatamente perceberam em circunstâncias similares.

Lembro, a esse propósito, o caso de Margaret Thatcher que, em 1990, se demitiu quando obteve 54,8 % por cento contra os 40,9% de Michael Heseltine. Ou o de Theresa May, em 2019, que conseguiu 63% dos votos, mas apenas depois de se comprometer a abandonar o cargo logo que fosse aprovado o acordo do Brexit (o que acabou por não conseguir fazer) e, consequentemente, a não se apresentar às seguintes eleições gerais.

Infelizmente, Boris Johnson não é capaz de estar à altura desses exemplos. Em vez disso, prefere a fuga para a frente, apesar de saber que o seu partido está profundamente dividido (como alguém já disse, à beira de uma guerra civil), que a maioria dos cidadãos não está com ele e que cada dia mais que passa no exercício de funções adensa as perspectivas de vitória dos trabalhistas.

Enquanto isto se desenrolava, todo o Reino Unido (incluindo aqueles que se consideram republicanos) celebrava, com afecto e agradecimento, o Jubileu de platina de Isabel II. De alguém que, no dia em que celebrou o seu vigésimo primeiro aniversário, assumiu o compromisso de, ao logo da sua vida – fosse ela curta ou longa, como então disse – servir o País e os seus cidadãos. De alguém que cumpriu, sem falhas, esse compromisso.

E, para azar de Boris Johnson, esta coincidência temporal só tornou ainda mais evidente a distância que vai entre o sentido de Estado da Rainha e a sua própria atitude de apego ao poder.

QOSHE - Isabel e Boris - José Matos Correia
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Isabel e Boris

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08.06.2022

Determinam as regras do Partido Conservador do Reino Unido que uma moção de censura ao seu líder exige o apoio de 15% dos membros do Comité 1922 (designação do órgão que reúne os backbenchers, isto é, os Deputados que não exercem funções governamentais ou de direcção política). E, como se sabe, esse requisito foi atingida na passada segunda-feira, levando a que, no próprio dia, a votação de tal moção tivesse lugar.

A causa imediata da iniciativa foi a publicação do relatório Gray, da responsabilidade de uma alta funcionária pública, no qual, sem margem para dúvidas, se evidencia que no n.º 10 de Downing Street (a sede do Governo e, ao mesmo tempo, a residência oficial do Primeiro-Ministro) se tinham realizado, no decurso da pandemia, múltiplos eventos (para não lhes chamar festas), em violação das regras restritivas impostas pelo próprio Executivo. E que Boris Johnson sabia da sua ocorrência, tendo participado, inclusive, nalguns deles.

Desde que, há alguns meses atrás, as primeiras suspeitas sobre esses comportamentos caíram na esfera pública, o Primeiro-Ministro teve uma atitude absolutamente errática. Começou por negar qualquer conhecimento da existência dos eventos; depois, afirmou que, caso tivessem acontecido, seguramente teriam respeitado as regras da pandemia; por fim, confessou a sua culpa e pediu “humildemente”........

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